quarta-feira, 24 de outubro de 2012
Missiologia: as pessoas não têm religião porque não frequentam as Igrejas?
“UM MISSIONÁRIO ACEITA A OUSADIA DA LÓGICA D’AQUELE QUE NOS AMOU ATÉ O FIM” (DOM STELLIN)
Elcione Leite de Paula.
1 INTRODUÇÃO
Panazzolo lembra que o homem/mulher, além de outras dimensões, é um ser religioso. A raiz de sua religiosidade é a sua própria abertura para o infinito, pois é insaciável por natureza. Agostinho expressou a essência da religião em sua fórmula: “Fizeste-nos, Senhor, para Ti e o nosso coração permanece inquieto enquanto não repousa em Ti”.
2 PÓS-SECULARES
Na pesquisa do Centro de Estatística Religiosa e Investigações Sociais, os “sem religião” são compostos por cinco categorias distintas. Dentre elas, só meio por cento se declara ateus, enquanto 41,4% possuem uma religiosidade própria sem vínculo com igrejas. Entre os “que saem do armário” e aqueles com uma religiosidade funcional e descompromissada é preciso, antes de apelar à natureza missionária e sua explicitação semântica (cf. AG 2; DAp 347), cultivar a capacidade dialogal dos discípulos-missionários que lhes permite um trânsito respeitoso e respeitado nesses ambientes. A missão além fronteiras é antes de tudo uma missão de sair de sua própria autossuficiência para conviver, uma missão testemunhal que sabe antes de falar, viver a razão de sua esperança (cf. 1Pd 3,13-16) sem etnocentrismo na cultura do outro. O diálogo com o outro implica informação e conhecimento sobre o contexto dos Areópagos do mundo (cf. DAp 491).
Faz cinquenta anos que vivemos num mundo do “pós” e da fragmentação das totalidades ou para Deleuze, da desterritorialização. Somos seres transitórios no mundo da nanotecnologia. Neste mundo, Deus, verdade e razão são situados, sabatinados, reinterpretados, encarnados. Nos independentes cristianismos convive o Deus Todo-poderoso com o Cordeiro de Deus imolado e crucificado. Deus, verdade e razão, nas palavras humanas, podem ser, como o pharmakon de Sócrates, remédio (libertador), veneno (ópio) e cosmético (poder e prosperidade).
O mundo pós-secular não enfrenta os abusos da modernidade secular, mas se contenta com elementos compensatórios e alienantes das religiões, em aliança com elementos da pré e pós-modernidade. Como vimos no caso da recondução da chamada Fraternidade Pio X à Igreja Católica, tal cristandade com máscaras novas exerce certa sedução para o pensamento católico e exige vigilância dobrada.
Qual é o querigma missionário a ser anunciado nos dois mundos que representam, por um lado, uma incompatibilidade entre fé e ciência (ateus) e, por outro lado, a distância entre uma religião de revelação comunitária e a de self-service? A fé é uma opção que não contradiz a ciência. A interlocução missionária se situa no lugar do facilitador e catalisador dessa fé possível. Neste caso, missão significa transformar a perspectiva do narcisismo em generosidade, significa burilar os múltiplos caminhos e escolhas no Caminho único que é Jesus Cristo, na dialética messiânica do Servo do Senhor, de cruz e ressurreição. Missão significa presença que soma, significa tradução e articulação. A palavra de Deus é contextualizada, adaptada, vernácula, historicamente encarnada, hermenêutica (Dom Pedro Casaldáliga). O Cristianismo tem a vocação de aglutinar comunidades com o objetivo da vida da humanidade e das futuras gerações. A tarefa missionária seria convencer os irmãos não crentes e os pós-seculares a somar forças e propor outro projeto civilizatório que contemple a todos, sem distinção, como o da Criação, em Gênesis, em que o Caim de hoje cuida do mais fragilizado, não o deixando morrer à beira das estradas da viagem da vida (Dom Erwin Kräutler).
CONCLUSÃO
Um discipulado missionário do Brasil para um mundo pós-secularizado e pluricultural à luz do Vaticano II é: somarmos nossos dons da fé aos daqueles que têm dons semelhantes, não a partir de sua fé, mas talvez a partir de seu humanismo que nega referenciais religiosos. Nessa abertura, o nosso discipulado até os confins do mundo será coerente com nossas origens e relevante para o nosso destino, ao ser uma diaconia que experimenta a graça da possibilidade de derrubar muros, lápides frias que segregam as pessoas.
REFERÊNCIAS
SUESS, Paulo. Ateus e pós-seculares: dois interlocutores da missão ad gentes. s/d. 26 jun. 2010.
Instrumento de trabalho do 3. Congresso Missionário Nacional (POM). “Como o Pai me enviou, assim eu vos envio” (Jo 20,21). Brasília: América, fev. 2012, p. 59.
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