GINZBURG, Carlo. O queijo e os vermes: o cotidiano e as ideias de um moleiro perseguido pela Inquisição. Tradução Maria Betânia Amoroso. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. 253p.
A obra foi organizada em sessenta e dois subtítulos pelo historiador italiano Ginzburg, nascido em 1936. Sua preciosidade trata de um moleiro, profissão comum na Europa do século XVI. Domenico Scandella, conhecido por Menocchio, nascido em 1532 é o protagonista desta saga. Em 7 de fevereiro de 1584, foi submetido ao primeiro interrogatório inquisitorial. “Menocchio participava integralmente da vida da comunidade. Em 1595, ele foi o portador de uma mensagem do lugar-tenente da Patria do Friuli ao magistrado local” (GINSBURG, 2006, 153). Menocchio, este homem da massa pensou de forma singular, afrontou o poder da hierarquia eclesiástica; por isso foi executado.
“Menocchio “declarou ao cônego Giambattista Maro, vigário-geral do inquisidor de Aquileia e Concórdia, que sua atividade era ‘de moleiro, carpinteiro, marceneiro, pedreiro e outras coisas’” (GINSBURG, 2006, 31). O pároco de Montereale, dom Odorico Vorai foi o anônimo delator daquele que propôs um “novo modo de viver”.
O moleiro que sabia ler e escrever, pensava e discutia suas ideias com o povo e ironizava seus perseguidores da Inquisição com metáforas. Sua cosmogonia materialista heterodoxa motivou a perseguição de seus algozes.
“Foram produzidos pela natureza [os anjos], a partir da mais perfeita substância do mundo, assim como os vermes nascem do queijo, e quando apareceram receberam vontade, intelecto e memória de Deus, que os abençoou”: parece claro pela resposta de Menocchio que a insistente remissão ao queijo e aos vermes tinha uma função puramente analógico-explicativa (GINZBURG, 2006, 102).
Para Menocchio, Deus veio do caos, baseado num mito indiano, mencionado nos Veda, em que a origem do mundo é explicada pela coagulação: água do mar batida e coagulada como o queijo, donde nasceram vermes que se tornaram homens, sendo Deus o mais potente. As ideias do moleiro também tiveram influências do panteísmo. Influência dos maniqueus, quanto no que diz respeito aos dois princípios que regem o mundo: o bem e o mal. Para ele, o amor ao próximo é mais importante que o amor a Deus. Este é composto dos quatro elementos (terra, água, ar, fogo) que formam o homem, imagem e semelhança de Deus. Menocchio não concordava com o purgatório, nem com os sacramentos. Seu discurso frisava o mandamento de Cristo-homem: a misericórdia.
Menocchio ruminava um estrato sólido de cultura oral, criticava a Igreja e propunha que ela voltasse às origens da Igreja primitiva pobre e pura, que tivesse nova moral para o clero e novas doutrinas. Os “mandamentos da Igreja” lhe pareciam, assim como para Caravia, “mercadorias” para engordar os padres (p. 131). O moleiro, considerado heresiarca, almejava uma religião camponesa, simplificada, um “novo mundo”. Conforme este moleiro, o Espírito Santo é um anjo a quem Deus deu a vontade (p. 114). Ele só existe no ser humano. Logo, ninguém é mais virtuoso que o outro, todos são filhos de Deus. Por isso, não há necessidade que algumas pessoas ministrem os sacramentos sobre as outras, por exemplo, não há necessidade muito menos das indulgências ou de relíquias. Não há o pecado original, pecado é fazer mal ao próximo (p. 109).
O moleiro dizia que “quem pensa que sabe muito é quem nada sabe” (GINZBURG, 2006, 42). Lembrava Sócrates. Menocchio morreu pela fé. Questionava a virgindade de Maria, a Redenção, as Sagradas Escrituras, inventadas pelos clérigos para dominar os homens. “A missa e o sacramento do altar eram, portanto, justificados de um ponto de vista quase político, como meio de civilidade” (GINZBURG, 2006, 43). A vida é uma festa ou como dizia Nietzsche, “Deus é dançarino”.
Menocchio, orgulhoso da irreverência de suas ideias, “compreendia que a escritura e a capacidade de dominar e transmitir a cultura escrita eram fontes de poder. Não se limitou, portanto, a denunciar [...] o uso de uma língua burocrática como o latim” (GINZBURG, 2006, 105). Elcione Leite de Paula.
terça-feira, 17 de abril de 2012
Resenha de "Introdução ao espírito da liturgia".
RATZINGER, Joseph. Introdução ao espírito da liturgia. Tradução Jana Almeida Olsansky. 3. ed. São Paulo: Paulinas, 2010. 174p.
A obra de Ratzinger trata, como bem expressa o título, de uma profunda introdução ao espírito da liturgia, seu valor histórico, cósmico. Ele opta por dividi-la em quatro partes, sendo elas: Sobre a natureza da liturgia; tempo e espaço na liturgia; liturgia e arte; a configuração da liturgia.
No prefácio, o Autor manifesta o desejo de que sua obra seja um novo estímulo para um movimento para a execução correta da Liturgia no seu exterior e interior.
O primeiro capítulo da primeira parte do livro delimita o que é Liturgia, sua ligação com a Vida, sobre o seu lugar na realidade. Liturgia seria contemplação, encontro maduro e abertura ao Deus vivo, “um prelúdio da futura e eterna vida a qual, como expõe Agostinho, não é, ao contrário da nossa vida presente, tecida de necessidade e obrigatoriedade, mas sim inteiramente da liberdade de oferecer e dar” (p.10).
O segundo capítulo da primeira parte explicita a relação da Liturgia com o Cosmos e a História. O Autor explica que diferente dos exercícios de relaxamento das religiões do Extremo Oriente, a filosofia cristã adotou o esquema de exitus e reditus.
Enquanto aqueles exercícios de relaxamento visam por uns momentos a libertação do finito, e possuem por isso força salvadora, a filosofia cristã pensa de modo oposto: o exitus, que é “o livre acto de Criação de Deus visa o reditus, mas isso não significa retirar o que foi criado, mas [...] a autocontemplação da criatura que se encontra no próprio íntimo dela e que responde livremente ao amor de Deus” (p. 23).
O terceiro capítulo aborda a transmissão do Antigo para o Novo Testamento, a forma fundamental da Liturgia cristã determinada pela Fé bíblica. O capítulo fala do caráter universal da encarnação da palavra eterna, do encontro de Deus com a Humanidade. Ratzinger conclui o capítulo ao afirmar que a Liturgia cristã é “a Liturgia da peregrinação que tem em vista a transformação do mundo, a qual só acontecerá, quando for ‘Deus tudo em todos’” (p. 38).
O primeiro capítulo da segunda parte da obra diz sobre a relação da Liturgia com o espaço e o tempo. O Autor enfatiza a Teologia dos símbolos que nos ligam ao oculto e ao presente. O véu do templo que se rasgou significa a unificação de toda a Humanidade com Deus vivo. “Na celebração litúrgica concretizam-se simultaneamente a inversão de Exitus e Reditus; a partida torna-se-á retorno, a descida de Deus tornar-se-á a nossa elevação” (p. 46).
O segundo capítulo relata o significado da igreja como edifício. A síntese da explicação é que “quem concretiza ‘o culto’ é Jesus — estando diante do Pai, Ele torna-se o culto dos seus, enquanto esses se juntam nele e em volta dele” (p. 47).
No terceiro capítulo, o qual discorre sobre o altar e a orientação da oração na Liturgia, percebemos o questionamento de Ratzinger acerca do perigo das inovações na Liturgia: “Será que a cruz incomoda a Eucaristia?” (p. 62).
O quarto capítulo se conclui ao afirmar que “o tabernáculo deve encontrar o lugar que lhe cabe na arquitectura da igreja, para que a presença do Senhor nos toque concretamente” (p. 67).
O quinto capítulo, ao abordar o tempo sagrado defende que “as festas maiores, que são a estrutura do ano da fé, são festas de Cristo e deste modo relacionadas com o único Deus, que se revelou a Moisés junto à sarça ardente e que escolheu Israel para ser o detentor do testemunho da sua singularidade” (p. 82).
Já no primeiro capítulo da terceira parte, o Autor destaca a questão das imagens, sobretudo a de Cristo, representado como o verdadeiro filósofo, como o Mestre, vindo da figura do pastor. “Esta imagem da Sagrada Escritura era muito admirada na primeira Cristandade, pois o pastor era simultaneamente a alegoria do Logos: o Logos que tudo criou, que contém todas as imagens originais de todos os seres, ele é o pastor da Criação” (p. 87).
O capítulo segundo nos remete à importância da música litúrgica. O relato bíblico descreve a reação do povo ao acontecimento fundamental da libertação no cântico de Moisés. Conforme o Pesquisador, a palavra cantar é uma das mais usadas na Bíblia. “Para os Cristãos, a ressurreição de Cristo que atravessou, Ele próprio, o ‘Mar Vermelho’ da morte, mergulhando no mundo das sombras e empurrando os portões dos cativeiros, foi o verdadeiro Êxodo, eternamente presente no Baptismo [... vida nova]” (p. 102). Ratzinger ainda conclui o capítulo ao assegurar que “na Liturgia, a alegria que sentimos através de Deus e do contacto com a sua presença continuam, também hoje, a ser um poder de inspiração inesgotável” (p. 115).
O primeiro capítulo da quarta e última parte da obra de Ratzinger relata sobre o Rito e expressa que “só o respeito pela precedência e pela definição essencial da Liturgia pode proporcionar-nos aquilo que esperamos dela: a celebração da magnitude que se aproxima de nós, que não é arquitectada por nós e que se nos oferece” (p. 125).
O segundo capítulo trata sobre a Liturgia e o corpo. O Autor subdivide o capítulo em sete pontos principais da celebração litúrgica: a participação ativa de cada fiel, o sinal da cruz, as posições, os gestos, a voz humana, a veste litúrgica, a matéria, incluindo os sacramentos. Conforme Ratzinger, a posição de “sentados” foi introduzida recentemente, a fim de serem possibilitadas boa audição e compreensão. No capítulo é destacada uma informação significativa, que às vezes reduz a riqueza da inculturação: dança. “A dança não é uma forma de expressão cristã. Já no século III, os círculos gnóstico-docéticos tentaram introduzi-la na Liturgia” (p. 146). As considerações finais deste último capítulo nos convocam ao comprometimento da vida litúrgica: o “agora” e “ainda não”, “único”, “depois”. Cristo toma iniciativa, aproxima-se de nós “com essa particular forma humana, fazendo de nós irmãos para além de todas as fronteiras. É assim que o reconhecemos: é o Senhor”: Jo 21, 7 (p. 165).
Elcione Leite de Paula.
A obra de Ratzinger trata, como bem expressa o título, de uma profunda introdução ao espírito da liturgia, seu valor histórico, cósmico. Ele opta por dividi-la em quatro partes, sendo elas: Sobre a natureza da liturgia; tempo e espaço na liturgia; liturgia e arte; a configuração da liturgia.
No prefácio, o Autor manifesta o desejo de que sua obra seja um novo estímulo para um movimento para a execução correta da Liturgia no seu exterior e interior.
O primeiro capítulo da primeira parte do livro delimita o que é Liturgia, sua ligação com a Vida, sobre o seu lugar na realidade. Liturgia seria contemplação, encontro maduro e abertura ao Deus vivo, “um prelúdio da futura e eterna vida a qual, como expõe Agostinho, não é, ao contrário da nossa vida presente, tecida de necessidade e obrigatoriedade, mas sim inteiramente da liberdade de oferecer e dar” (p.10).
O segundo capítulo da primeira parte explicita a relação da Liturgia com o Cosmos e a História. O Autor explica que diferente dos exercícios de relaxamento das religiões do Extremo Oriente, a filosofia cristã adotou o esquema de exitus e reditus.
Enquanto aqueles exercícios de relaxamento visam por uns momentos a libertação do finito, e possuem por isso força salvadora, a filosofia cristã pensa de modo oposto: o exitus, que é “o livre acto de Criação de Deus visa o reditus, mas isso não significa retirar o que foi criado, mas [...] a autocontemplação da criatura que se encontra no próprio íntimo dela e que responde livremente ao amor de Deus” (p. 23).
O terceiro capítulo aborda a transmissão do Antigo para o Novo Testamento, a forma fundamental da Liturgia cristã determinada pela Fé bíblica. O capítulo fala do caráter universal da encarnação da palavra eterna, do encontro de Deus com a Humanidade. Ratzinger conclui o capítulo ao afirmar que a Liturgia cristã é “a Liturgia da peregrinação que tem em vista a transformação do mundo, a qual só acontecerá, quando for ‘Deus tudo em todos’” (p. 38).
O primeiro capítulo da segunda parte da obra diz sobre a relação da Liturgia com o espaço e o tempo. O Autor enfatiza a Teologia dos símbolos que nos ligam ao oculto e ao presente. O véu do templo que se rasgou significa a unificação de toda a Humanidade com Deus vivo. “Na celebração litúrgica concretizam-se simultaneamente a inversão de Exitus e Reditus; a partida torna-se-á retorno, a descida de Deus tornar-se-á a nossa elevação” (p. 46).
O segundo capítulo relata o significado da igreja como edifício. A síntese da explicação é que “quem concretiza ‘o culto’ é Jesus — estando diante do Pai, Ele torna-se o culto dos seus, enquanto esses se juntam nele e em volta dele” (p. 47).
No terceiro capítulo, o qual discorre sobre o altar e a orientação da oração na Liturgia, percebemos o questionamento de Ratzinger acerca do perigo das inovações na Liturgia: “Será que a cruz incomoda a Eucaristia?” (p. 62).
O quarto capítulo se conclui ao afirmar que “o tabernáculo deve encontrar o lugar que lhe cabe na arquitectura da igreja, para que a presença do Senhor nos toque concretamente” (p. 67).
O quinto capítulo, ao abordar o tempo sagrado defende que “as festas maiores, que são a estrutura do ano da fé, são festas de Cristo e deste modo relacionadas com o único Deus, que se revelou a Moisés junto à sarça ardente e que escolheu Israel para ser o detentor do testemunho da sua singularidade” (p. 82).
Já no primeiro capítulo da terceira parte, o Autor destaca a questão das imagens, sobretudo a de Cristo, representado como o verdadeiro filósofo, como o Mestre, vindo da figura do pastor. “Esta imagem da Sagrada Escritura era muito admirada na primeira Cristandade, pois o pastor era simultaneamente a alegoria do Logos: o Logos que tudo criou, que contém todas as imagens originais de todos os seres, ele é o pastor da Criação” (p. 87).
O capítulo segundo nos remete à importância da música litúrgica. O relato bíblico descreve a reação do povo ao acontecimento fundamental da libertação no cântico de Moisés. Conforme o Pesquisador, a palavra cantar é uma das mais usadas na Bíblia. “Para os Cristãos, a ressurreição de Cristo que atravessou, Ele próprio, o ‘Mar Vermelho’ da morte, mergulhando no mundo das sombras e empurrando os portões dos cativeiros, foi o verdadeiro Êxodo, eternamente presente no Baptismo [... vida nova]” (p. 102). Ratzinger ainda conclui o capítulo ao assegurar que “na Liturgia, a alegria que sentimos através de Deus e do contacto com a sua presença continuam, também hoje, a ser um poder de inspiração inesgotável” (p. 115).
O primeiro capítulo da quarta e última parte da obra de Ratzinger relata sobre o Rito e expressa que “só o respeito pela precedência e pela definição essencial da Liturgia pode proporcionar-nos aquilo que esperamos dela: a celebração da magnitude que se aproxima de nós, que não é arquitectada por nós e que se nos oferece” (p. 125).
O segundo capítulo trata sobre a Liturgia e o corpo. O Autor subdivide o capítulo em sete pontos principais da celebração litúrgica: a participação ativa de cada fiel, o sinal da cruz, as posições, os gestos, a voz humana, a veste litúrgica, a matéria, incluindo os sacramentos. Conforme Ratzinger, a posição de “sentados” foi introduzida recentemente, a fim de serem possibilitadas boa audição e compreensão. No capítulo é destacada uma informação significativa, que às vezes reduz a riqueza da inculturação: dança. “A dança não é uma forma de expressão cristã. Já no século III, os círculos gnóstico-docéticos tentaram introduzi-la na Liturgia” (p. 146). As considerações finais deste último capítulo nos convocam ao comprometimento da vida litúrgica: o “agora” e “ainda não”, “único”, “depois”. Cristo toma iniciativa, aproxima-se de nós “com essa particular forma humana, fazendo de nós irmãos para além de todas as fronteiras. É assim que o reconhecemos: é o Senhor”: Jo 21, 7 (p. 165).
Elcione Leite de Paula.
Pão na vida
Pão na Vida
Trago em minha memória
Minha infância pobre
Morando na periferia da cidade
Convivíamos eu, meus pais e minha irmã
Me lembro que o pai
Nunca ligou pra comprar o pão,
Mas uma vez por semana
Iamos ao serviço da mãe
E comíamos meio pão cada um.
Era o ritual mais esperado por nós
O pão que nos ensinou a partilha
Que também aprendemos na Eucaristia
Partilhar o pão e a vida com os irmãos
Eu sou o Elcione Leite e essa é a minha história que aconteceu em Muriaé, Zona da Mata Mineira. Hoje tenho 31 anos, um irmão e 3 irmãs e meu pais. DIGO: Hoje comemos pão todos os dias porque amamos e aprendemos a partilhar.
Trago em minha memória
Minha infância pobre
Morando na periferia da cidade
Convivíamos eu, meus pais e minha irmã
Me lembro que o pai
Nunca ligou pra comprar o pão,
Mas uma vez por semana
Iamos ao serviço da mãe
E comíamos meio pão cada um.
Era o ritual mais esperado por nós
O pão que nos ensinou a partilha
Que também aprendemos na Eucaristia
Partilhar o pão e a vida com os irmãos
Eu sou o Elcione Leite e essa é a minha história que aconteceu em Muriaé, Zona da Mata Mineira. Hoje tenho 31 anos, um irmão e 3 irmãs e meu pais. DIGO: Hoje comemos pão todos os dias porque amamos e aprendemos a partilhar.
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