terça-feira, 16 de abril de 2013

resenha sobre "Frei Caneca"

MOREL, Marco. Frei Caneca: entre Marília e a Pátria. Rio de Janeiro: FGV, 2000. 100 p. Col. “Os que fazem a história”. Coord. Francisco J. Calazans Falcon. Marco Morel é mestre em História do Brasil pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, doutor em História pela Universidade de Paris I (Panthéon-Sorbonne), jornalista, pesquisador e professor do Departamento de História da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. A exclusiva obra relata a história do frade carmelita Joaquim do Amor Divino Rabelo Caneca, natural de Recife, conhecido por Frei Caneca. Mas esta história está inserida num contexto maior, de lutas travadas entre a Coroa portuguesa, representada por dom João VI e seus posteriores contra os liberais, também chamados de patriotas e ou rebeldes. Este contexto tem sua gênese mais pontual na vinda da Corte Portuguesa para o Brasil em 1808. O primeiro capítulo da obra trata da morte de Frei Caneca, da insegurança em torno do fato ocorrido e da ocultação do seu cadáver: “Mas foi em silêncio e medo que o corpo [...] do frade carmelita turonense, acabara de ser emparedado naquele alvorecer da nação brasileira” (p.17). Já o segundo capítulo compara os sete dias da criação (cf. Gênesis 1,1-2;4a) com os sete aspectos que marcaram a vida de Caneca. O quarto dia é significativo no que diz respeito ao significado de seu nome. “E ao tomar o hábito de noviço no Convento do Carmo de Recife, em 8 de outubro de 1796” (p.23), assume em seu nome o ofício do pai, fabricante de canecas e outros utensílios. No terceiro capítulo, em meio às revoluções, se tem o contexto da revolução de Pernambuco, em 1817, descrita por um dos presos, Monsenhor Francisco Muniz Tavares. “Frei Caneca fora preso em 1º de junho de 1817 e chegaria na Bahia dia 19, portanto, 18 dias acorrentado” (p. 50). Só será libertado em 10 de fevereiro de 1821. Sua prisão fora por causa das calúnias de dois colegas freis. Por motivos de vingança o acusaram perante os portugueses de “ter participado de treinamento de guerrilha, marchado junto com as tropas rebeldes que iam em direção ao Norte, de ser amigo do padre João Ribeiro e de ter ativa participação no movimento republicano” (p.47). O carmelita se defende nas duas petições em que ele dirige, uma a dom João VI e outra a Frei Inocêncio. Esclarece ser um homem de vida religiosa, manso e recolhido num mosteiro, onde praticava seus cargos eclesiásticos e seu ofício de professor (p. 47). “Até então, entre Marília e a pátria — entre o amor individual e a paixão coletiva —, a opção de Frei Caneca pendia para a primeira [...] A brutalidade da prisão iria enviá-lo para outras dimensões” (p.49). O quarto capítulo expressa a chegada da embarcação inglesa ao Recife, tendo como expoente a inglesinha de olhos azuis, Maria Graham (p. 55). Tal embarcação chega no momento em que as mudanças estão fervilhando, como exemplo disso é “o Antigo Regime absolutista que decompunha-se, tendo como cenário o espaço urbano (centro de comércio mercantil e também cultural e ao mesmo tempo periférico em relação ao poder central), onde novas formas de sociabilidade e de participação política vinham à luz” (p. 56). O próprio Frei Caneca, após sua libertação do cárcere, transformou o olhar sobre a sociedade. O quinto capítulo é sobre “a competição entre o poder do imperador e diferentes forças situadas nas províncias, disputa política atravessada por tensões sociais, étnicas e econômicas” (p. 72). O último capítulo se concentra na prisão, condenação e morte do Frei. Naquele “momento histórico de transição do Antigo Regime para o liberalismo constitucional, que surge a possibilidade de o condenado, ainda que levado à morte, apropriar-se do espetáculo final e de sua memória” (p.90). A importância da obra está em nos situarmos com veemência no contexto que compreende os anos de 1817 e 1825, anos da prisão e morte de Frei Caneca, período do Brasil-colônia, lutando para se tornar independente de Portugal. Embora o autor retroceda ou avance estes anos citados acima, o faz com o intuito de introduzir a época mencionada e para demonstrar a repercussão que o carmelita vai tomar ao longo da história. _____________________________________ Elcione Leite de Paula

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Fé e Luz: movimento de inspiração ecumênica constituído por pessoas com necessidades especiais

Uma Comunidade de Encontro, uma Esperança: sal da terra e luz do mundo (cf. Mt 5,13). “... Quando deres uma festa, chama pobres, estropiados, coxos, cegos; feliz serás, então, porque eles não têm com que retribuir. Serás, porém, recompensado na ressurreição dos justos” [(cf. Lc 14,13-14) Tradução Bíblia de Jerusalém]. 1 INTRODUÇÃO Conforme a fundadora da Comunidade Fé e Luz, Marie-Hélène Mathieu, na segunda-feira da Páscoa de 1971 uma peregrinação a Lourdes chega ao fim e o Movimento de inspiração ecumênica e cristã “Fé e Luz” nasce. A peregrinação foi a resposta ao apelo de um casal, pais de duas crianças com deficiência intelectual. Com frequência, após terem vivido situações angustiantes, os peregrinos tiveram em Lourdes uma experiência de alegria e comunhão profunda. Ao retornar a seus países, seguiram se reunindo regularmente em pequenas comunidades, em encontros de amizade, oração e festa. 2 UM BREVE HISTÓRICO Segundo Jean Vanier, fundador da Arca, a semente do Fé e Luz, depositada no coração dos peregrinos em Lourdes, desenvolveu-se em 1600 comunidades de diferentes tradições cristãs (anglicana; presbiteriana; luterana; comunidades ortodoxas na Rússia, no Oriente Médio, na Romênia, Grécia, em Chipre; outras são interconfessionais), enraizadas em paróquias ou nas igrejas locais, crescem em 85 países. No Brasil, as primeiras comunidades começaram em 1977, no Rio de Janeiro e em São Paulo. Hoje são em torno de 90 comunidades, cobrindo 10 estados. 3 OBJETIVO O objetivo central visa integrar os irmãos com necessidades especiais na comunidade de fé local. O ponto de partida para cada reflexão sobre a deficiência está enraizado nas persuasões fundamentais da antropologia cristã: a pessoa deficiente, também quando está ferida na mente ou nas suas capacidades sensitivas e intelectivas, é um sujeito plenamente humano, com os direitos sagrados e inalienáveis próprios de cada criatura humana. Com efeito, o ser humano independentemente das condições em que se desenrola a sua vida e das capacidades que pode expressar, possui uma dignidade única e um valor singular desde o princípio da sua existência até ao momento da morte natural. A pessoa deficiente, com todos os limites e sofrimentos pelos quais está marcado, obriga-nos a interrogar-nos, com respeito e sabedoria, acerca do mistério do homem. De fato, quanto mais nos movemos nas áreas obscuras e desconhecidas da realidade humana, tanto mais se compreende que precisamente nas situações mais difíceis e preocupantes emerge a dignidade e a grandeza do ser humano. A humanidade ferida e deficiente desafia-nos a reconhecer, acolher e promover em cada um destes nossos irmãos e irmãs o valor incomparável do ser humano criado por Deus para ser filho no Filho (JOÂO PAULO II, 5 jan. 2004. §2). Sua vocação específica é constituída por cerca de 30 membros: pessoas com deficiência mental, seus pais, seus irmãos (ãs) e amigos. As comunidades Fé e Luz reúnem-se pelo menos uma vez por mês, para um encontro de amizade e partilha, de festa, de celebração e oração; há férias comunitárias, retiros, peregrinações. Uma comunidade é um lugar de pertença, para sair da solidão. Fé e Luz é também uma comunidade de fé, de celebrar a vida, falar de Jesus e do Evangelho, rezar, partilhar sofrimentos e esperanças. A festa tem, também, um lugar importante, uma vez que as pessoas especiais nos conduzem à comunhão dos corações quando estamos com elas. 3.1 O EMBLEMA Muita gente pergunta sobre a origem do emblema de Fé e Luz: “este barquinho iluminado pelo sol, que começa a sair das nuvens”. Meb, um pintor com Síndrome de Down, compôs esta obra por ocasião da primeira peregrinação a Lourdes. Nós lhe havíamos dito unicamente: “Você pode desenhar Fé e Luz?”. Ele pediu a sua mãe que lhe lesse o estatuto da peregrinação. Depois iniciou a trabalhar. Intuitivamente, porque ele não sabia contar, colocou no esboço os doze apóstolos. “Jesus, disse Meb, dorme no fundo do barco. Mas nós não devemos ter medo porque seu coração está atento”. Uma legenda acompanhava o desenho: “As nuvens se abrem e tua Luz, Senhor, vem até nós”. Fé e Luz reproduziu a barca e esqueceu de falar de seu autor. É uma injustiça que desejamos reparar. Assim, de agora em diante, cuidaremos e pediremos a todos que cuidem também de colocar o nome de Meb no desenho. Procuremos também ser fiéis ao original, em particular aos doze apóstolos (retirado do Roteiro de Encontros / 1997). 4 ATIVIDADES Confraternização mensal, partilha da palavra de Deus orientada por um roteiro do Movimento; orientação espiritual de um padre ou pastor, viagem anual, quando possível. 4.1 CRONOGRAMA Almoço de Natal, celebração da Páscoa com as comunidades Fé e Luz da cidade, festa junina, encontro de formação, orientado pelo (a) coordenador (a) do Movimento, ou melhor, da família Fé e Luz. 5 CONCLUSÃO Quando já não nos sentimos sós, a vida é transformada. Assim, de acordo com Vanier, pessoas de Igrejas diferentes estão unidas por uma mesma espiritualidade evangélica: “Deus escolheu o que há de louco e fraco no mundo para confundir os sábios e os fortes” (cf. 1Cor 1,27). A pessoa com uma deficiência mental, pela sua simplicidade revela o mistério do coração de Deus, que se fez pequenino para nos revelar o Amor. Cada pessoa, por mais frágil que seja, tem um coração capaz de amar, de acolher Jesus. Porventura, não é isto o essencial para cada um de nós? REFERÊNCIAS MATHIEU, Marie-Hélène. VANIER, Jean. Plus jamais seuls!: l’aventure de foi et lumière. Editora Presses de la Renaissance (3 de nov. de 2011). ASIN: B006GD9WEU. 358 p. Acesso em: http://www.amazon.com/jamais-seuls-French-Edition-ebook/dp/B006GD9WEU CONGRESSO INTERNACIONAL “DIGNIDADE E DIREITOS DA PESSOA COM DEFICIÊNCIA MENTAL”. Alocução de João Paulo II, PAPA. Vaticano, 5 de janeiro de 2004. Acesso em: http://www.feeluz.org. Acesso em: 14 nov. 2012. Vídeo: Fé e Luz, a eficiência do amor, produção Verbo Filmes. Elcione Leite de Paula.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

LIturgia I: obra do teólogo Joseph Ratzinger, Papa Bento XVI

RATZINGER, Joseph. Introdução ao espírito da liturgia. Tradução Jana Almeida Olsansky. 3. ed. São Paulo: Paulinas, 2010. 174p. A obra de Ratzinger trata, como bem expressa o título, de uma profunda introdução ao espírito da liturgia, seu valor histórico, cósmico. Ele opta por dividi-la em quatro partes, sendo elas: Sobre a natureza da liturgia; tempo e espaço na liturgia; liturgia e arte; a configuração da liturgia. No prefácio, o Autor manifesta o desejo de que sua obra seja um novo estímulo para um movimento para a execução correta da Liturgia no seu exterior e interior. O primeiro capítulo da primeira parte do livro delimita o que é Liturgia, sua ligação com a Vida, sobre o seu lugar na realidade. Liturgia seria contemplação, encontro maduro e abertura ao Deus vivo, “um prelúdio da futura e eterna vida a qual, como expõe Agostinho, não é, ao contrário da nossa vida presente, tecida de necessidade e obrigatoriedade, mas sim inteiramente da liberdade de oferecer e dar” (p.10). O segundo capítulo da primeira parte explicita a relação da Liturgia com o Cosmos e a História. O Autor explica que diferente dos exercícios de relaxamento das religiões do Extremo Oriente, a filosofia cristã adotou o esquema de exitus e reditus. Enquanto aqueles exercícios de relaxamento visam por uns momentos a libertação do finito, e possuem por isso força salvadora, a filosofia cristã pensa de modo oposto: o exitus, que é “o livre acto de Criação de Deus visa o reditus, mas isso não significa retirar o que foi criado, mas [...] a autocontemplação da criatura que se encontra no próprio íntimo dela e que responde livremente ao amor de Deus” (p. 23). O terceiro capítulo aborda a transmissão do Antigo para o Novo Testamento, a forma fundamental da Liturgia cristã determinada pela Fé bíblica. O capítulo fala do caráter universal da encarnação da palavra eterna, do encontro de Deus com a Humanidade. Ratzinger conclui o capítulo ao afirmar que a Liturgia cristã é “a Liturgia da peregrinação que tem em vista a transformação do mundo, a qual só acontecerá, quando for ‘Deus tudo em todos’” (p. 38). O primeiro capítulo da segunda parte da obra diz sobre a relação da Liturgia com o espaço e o tempo. O Autor enfatiza a Teologia dos símbolos que nos ligam ao oculto e ao presente. O véu do templo que se rasgou significa a unificação de toda a Humanidade com Deus vivo. “Na celebração litúrgica concretizam-se simultaneamente a inversão de Exitus e Reditus; a partida torna-se-á retorno, a descida de Deus tornar-se-á a nossa elevação” (p. 46). O segundo capítulo relata o significado da igreja como edifício. A síntese da explicação é que “quem concretiza ‘o culto’ é Jesus — estando diante do Pai, Ele torna-se o culto dos seus, enquanto esses se juntam nele e em volta dele” (p. 47). No terceiro capítulo, o qual discorre sobre o altar e a orientação da oração na Liturgia, percebemos o questionamento de Ratzinger acerca do perigo das inovações na Liturgia: “Será que a cruz incomoda a Eucaristia?” (p. 62). O quarto capítulo se conclui ao afirmar que “o tabernáculo deve encontrar o lugar que lhe cabe na arquitectura da igreja, para que a presença do Senhor nos toque concretamente” (p. 67). O quinto capítulo, ao abordar o tempo sagrado defende que “as festas maiores, que são a estrutura do ano da fé, são festas de Cristo e deste modo relacionadas com o único Deus, que se revelou a Moisés junto à sarça ardente e que escolheu Israel para ser o detentor do testemunho da sua singularidade” (p. 82). Já no primeiro capítulo da terceira parte, o Autor destaca a questão das imagens, sobretudo a de Cristo, representado como o verdadeiro filósofo, como o Mestre, vindo da figura do pastor. “Esta imagem da Sagrada Escritura era muito admirada na primeira Cristandade, pois o pastor era simultaneamente a alegoria do Logos: o Logos que tudo criou, que contém todas as imagens originais de todos os seres, ele é o pastor da Criação” (p. 87). O capítulo segundo nos remete à importância da música litúrgica. O relato bíblico descreve a reação do povo ao acontecimento fundamental da libertação no cântico de Moisés. Conforme o Pesquisador, a palavra cantar é uma das mais usadas na Bíblia. “Para os Cristãos, a ressurreição de Cristo que atravessou, Ele próprio, o ‘Mar Vermelho’ da morte, mergulhando no mundo das sombras e empurrando os portões dos cativeiros, foi o verdadeiro Êxodo, eternamente presente no Baptismo [... vida nova]” (p. 102). Ratzinger ainda conclui o capítulo ao assegurar que “na Liturgia, a alegria que sentimos através de Deus e do contacto com a sua presença continuam, também hoje, a ser um poder de inspiração inesgotável” (p. 115). O primeiro capítulo da quarta e última parte da obra de Ratzinger relata sobre o Rito e expressa que “só o respeito pela precedência e pela definição essencial da Liturgia pode proporcionar-nos aquilo que esperamos dela: a celebração da magnitude que se aproxima de nós, que não é arquitectada por nós e que se nos oferece” (p. 125). O segundo capítulo trata sobre a Liturgia e o corpo. O Autor subdivide o capítulo em sete pontos principais da celebração litúrgica: a participação ativa de cada fiel, o sinal da cruz, as posições, os gestos, a voz humana, a veste litúrgica, a matéria, incluindo os sacramentos. Conforme Ratzinger, a posição de “sentados” foi introduzida recentemente, a fim de serem possibilitadas boa audição e compreensão. No capítulo é destacada uma informação significativa, que às vezes reduz a riqueza da inculturação: dança. “A dança não é uma forma de expressão cristã. Já no século III, os círculos gnóstico-docéticos tentaram introduzi-la na Liturgia” (p. 146). As considerações finais deste último capítulo nos convocam ao comprometimento da vida litúrgica: o “agora” e “ainda não”, “único”, “depois”. Cristo toma iniciativa, aproxima-se de nós “com essa particular forma humana, fazendo de nós irmãos para além de todas as fronteiras. É assim que o reconhecemos: é o Senhor”: Jo 21, 7 (p. 165). Elcione Leite de Paula

"Aggiornamento": jubileu de ouro do Concílio Ecumênico do Vaticano II

A função dos “sinais dos tempos” como chave hermenêutica para entender o Concílio Vaticano II Elcione Leite de Paula Este texto trata de uma amostra subjetiva a partir de uma leitura atenta de um dos documentos mais importantes do Concílio Vaticano II, evento cinquentenário rejuvenescedor da história da Igreja, que “usou mais do remédio da misericórdia que o da severidade”. Do ponto de vista da Lumen Gentium, observa-se o ato de repensar as estruturas epistemológicas da pastoral. “Sinais dos tempos” será uma expressão implícita na missão dos membros do corpo místico de Cristo, o qual subsiste na Igreja Católica. Muitas vezes, os “sinais dos tempos” será a justaposição entre a doutrina da Igreja e o mundo ultramoderno. Trata-se do diálogo e do chamado para a reflexão. Os membros do corpo místico de Cristo se esforçam para cumprir sua missão ou são indiferentes ao sofrimento dos irmãos empobrecidos da América Latina? “Enquanto, pois nesta terra a Igreja peregrina longe do Senhor (cf. 2Cor 5,6) [...] pelo batismo configuramo-nos com Cristo” (LG 6e. 7b). “Como o Israel segundo a carne, que peregrinava no deserto, já é chamado Igreja de Deus (2Esdr 13,1; cf. Num 20,4; Dt 23,1 ss), assim o novo Israel que, caminhando no presente tempo, busca a futura cidade perene (cf. Heb 13,14), Igreja de Cristo (cf. Mt 16,18)” (LG 9c). E que tempo em que caminhamos: tempo do facebook que pode ser um veículo de denúncia das nossas estruturas injustas que mantêm o status quo de poucos. Mais importante que as redes sociais é a palavra de Deus que nos inspira a fazer da Eucaristia o banquete de todos: configurados a Cristo, somos oblação e devemos nos esquecer de nossos próprios interesses para viver a comunhão e o compromisso com os abeis, com os mais fragilizados, na construção do Reino do Pai Eterno. “Nestas comunidades, embora muitas vezes pequenas e pobres, ou vivendo na dispersão, está presente Cristo, por cuja virtude se consocia a Igreja uma, santa, católica e apostólica” (LG 26a). O colégio episcopal é a sentinela que cuida das ovelhas dispersas do redil da grei do Senhor. Nós, em virtude do nosso sacerdócio comum, ao redor da mesa do Senhor, refletimos sobre até que ponto vivemos a “missionariedade, natureza da Igreja”? Os Presbíteros, “em favor dos fiéis penitentes ou doentes exercem no mais alto grau o ministério da reconciliação e do alívio” (LG 28a). “Já que, hoje em dia, mais e mais o gênero humano se vai unindo numa unidade civil, econômica e social, tanto mais é mister que os sacerdotes [...] levem todo o gênero humano à unidade da família de Deus” (LG 28e). Os padres diocesanos, em especial, se abrem à missão da Igreja universal ou ainda se limitam à zona de conforto da própria Diocese? Os leigos, fiéis batizados, participam do sacerdócio comum, com “todas as suas obras, preces e iniciativas apostólicas, vida conjugal e familiar [...] e mesmo os incômodos da vida pacientemente suportados, tornam-se ‘hóstias espirituais, agradáveis a Deus, por Jesus Cristo’ (1Ped 2,5)” (LG 34b), ofertadas à Mesa com Jesus. “Também os pobres, os fracos, os doentes e atribulados; os que sofrem perseguição pela justiça saibam unir-se de modo especial a Cristo em seu sofrimento pela salvação do mundo” (LG 41f). “A Igreja, para a qual somos todos chamados em Cristo Jesus e na qual pela graça de Deus adquirimos a santidade, só se consumará na glória celeste, quando chegar o tempo da restauração de todas as coisas (cf. At 3,21)” (LG 48a). Esta é a missão da Igreja militante, exodal, a exemplo de Maria, modelo de Igreja, que tem pressa de servir os empobrecidos pelo nosso narcisismo. Deus mesmo nos fala nos homens “e nos dá um sinal de Seu Reino, para o qual, à vista de tão grande nuvem de testemunhas que nos envolvem (cf. Heb 12,1) e de tal contestação da Verdade do Evangelho, somos poderosamente atraídos” (LG 50b). “Deus benigníssimo e sapientíssimo, querendo realizar a Redenção do mundo, ‘quando veio a plenitude do tempo, enviou seu Filho, feito da mulher, ... para que recebêssemos a adoção de filhos’ (Gál 4,4-5)”: mistério revelado na Igreja que o Senhor constituiu como Seu corpo (LG 52). A expressão “Reino de Deus” permeia todos os capítulos da Constituição Dogmática sobre a Igreja. Ela aparece 38 vezes, dentre elas: “o único Povo de Deus estende-se a todos os povos da terra, recebendo de todos êles seus cidadãos para fazê-los cidadãos de um Reino com índole não terrestre mas celeste” (LG 13b). A Igreja do Concílio Vaticano II deixa de se preocupar com o triunfalismo para ser servidora dos pobres, da humanidade, ao entender que é preciso buscar primeiro o “Reino de Deus”, olhar para além de Jesus. “A partir daí, é possível reler até a afirmação polêmica de Loisy e dizer que Jesus anunciou, sim, o Reino de Deus, não a Igreja; que a Igreja é diferente, sim, do Reino; que a Igreja, porém, nasce e vive do vigor e da interpelação do Reino, como seu sinal, germe” (ALMEIDA, 2005, p. 70). A Igreja recebe o mandato de Cristo pelos Apóstolos para se abrir aos frutos do Espírito e anunciar o Ressuscitado. Anunciar seu Salvador, O qual anunciou o Reino do Pai: “Cristo, feito obediente até à morte e por isso exaltado pelo Pai (cf. Filip 2,8-9), entrou na glória do seu reino” (LG 36a). O Papa Gregório I (séc. VII), o Servo dos Servos, se aproxima da linguagem do Vaticano II, com seu testemunho de “respeito e amor fraterno” (ALMEIDA, 2005, p. 126). Esta é a proposta de Jesus, obedecida pelo Concílio Ecumênico do Vaticano II: anunciar o Reino de paz, esperança, amor. Na atitude do lava-pés, a Igreja se questiona novamente, após meio século, se é uma Igreja mais samaritana, mais ministerial, “quenótica”, dialogal, que ufanista. REFERÊNCIAS ALMEIDA, Antônio José de. Lumen gentium: a transição necessária. São Paulo: Paulus, 2005. DOCUMENTOS PONTIFÍCIOS 149. A Igreja. Constituição Dogmática Lumen Gentium. Concílio Vaticano II. 7. ed. Petrópolis: Vozes, 1967.

História do Cristianismo moderno: Weber

História do Cristianismo Moderno Aluno: Elcione Leite de Paula Resenha: A perda de tempo através da vida social, conversas ociosas, do luxo, e mesmo do sono além do necessário para a saúde — seis, no máximo oito, horas por dia — é absolutamente indispensável do ponto de vista moral. Não se trata assim do “Time is Money” de Franklin, mas a proposição lhe é equivalente no sentido espiritual: ela é infinitamente valiosa, pois, de toda hora perdida no trabalho redunda uma perda de trabalho para a glorificação de Deus [...] existe o domingo, e, segundo Baxter, são os que não estão absortos em sua vocação, que nem para Deus têm tempo, na hora existente para esse mister (p. 112). A ascese sexual do puritanismo somente difere no grau, e não na essência, da ascese monacal; e, de acordo com a concepção puritana do casamento, como meio desejado por Deus para aumento de Sua glória, de acordo com o mandamento “Crescei e Multiplicai-vos”. Mas, o mais importante é que o trabalho constitui, antes de mais nada, a própria finalidade da vida. A expressão paulina “Quem não trabalha não deve comer” é incondicionalmente válida para todos. A falta de vontade de trabalhar é um sintoma da ausência do estado de graça (p. 113). Princípios éticos para a reforma do mundo não podiam ser encontrados no rol dos pensamentos de Lutero, que nunca conseguiu libertar-se completamente da indiferença paulina pelo mundo. Este, portanto, devia ser aceito como era, e só isto já podia constituir-se num dever religioso (p. 114). Também de acordo com a ética Quaker é a vida profissional do homem que lhe dá certo treino moral, uma prova de seu estado de graça para a sua consciência, que se expressa no zelo e no método, fazendo com que ele consiga cumprir a sua vocação [...] Na concepção puritana da vocação, a ênfase sempre é posta neste caráter metódico da ascese vocacional, e não, como em Lutero, na aceitação do destino irremediavelmente assinalado por Deus (p. 115). A parábola do servo que foi desaprovado por não ter aumentado a soma que lhe foi confiada serve para expressar isso diretamente (p. 116). A teoria segundo a qual a Lei Mosaica perdeu sua validez através do Novo Testamento, apenas no sentido de conter preceitos cerimoniais e puramente históricos aplicáveis somente ao povo judeu, de resto permanecendo válida e, devendo ser obedecida como uma expressão do direito natural, permitiu, de um lado, eliminar os elementos inconciliáveis com a vida moderna, e, do outro, o fortalecimento do espírito de sóbria e farisaica legalidade, que caracterizava o ascetismo secular dessa forma de protestantismo, através de seus inúmeros traços em comum com a moralidade do Velho Testamento (p. 118). A sociedade monárquico-feudal defendia os que queriam divertir-se contra a moral da burguesia ascendente e as convenções ascéticas insubmissas à autoridade, da mesma forma que a atual sociedade capitalista tende a proteger os que querem trabalhar contra a moralidade de classe do proletariado e do anti-autoritário sindicato (p. 119-120). O ódio feroz dos puritanos, contra tudo que cheirasse a superstição, contra todas as reminiscências da salvação mágica ou sacramental opunha-se, tanto às festividades cristãs do Natal, como à árvore de maio, e também a toda arte religiosa espontânea (p. 120-121). Mas, o que era ainda mais importante: a avaliação religiosa do infatigável, constante e sistemático labor vocacional secular, como o mais alto instrumento de ascese, e, ao mesmo tempo, como o mais seguro meio de preservação da redenção da fé e do homem, deve ter sido presumivelmente a mais poderosa alavanca da expressão dessa concepção de vida, que aqui apontamos como “espírito” do capitalismo (p. 123). Transcrevemos aqui um trecho de John Wesley. Isto, porque mostrara que os líderes desses movimentos ascéticos compreendiam muito bem as relações aparentemente tão paradoxais que aqui analisamos. Assim escreve ele: “[...] Os metodistas tornaram-se laboriosos e econômicos em toda parte; consequentemente, aumenta a sua riqueza. E, proporcionalmente, crescem neles o orgulho, as paixões, os apetites da carne e do mundo, e a soberbia da vida. Assim, embora permaneça a forma da religião, seu espírito rapidamente se desvanece. Não haverá algum meio para evitar essa decadência da pura religião? Não devemos deixar de recomendar às pessoas que sejam laboriosas e aconômicas. Devemos exortar todos os cristãos a ganhar tudo o que for possível, e a economizar o máximo possível; isto é, em outras palavras, a se enriquecerem” (p. 126). Então aparece, como se pode ver em Dwden, na figura fantasiosa de Robinson Crusoe, o isolado homem econômico, que desenvolve atividades missionárias, em vez da procura interior individual do reino dos céus, na “feira da vaidade” do apressado peregrino de Bunyan (p. 127). Por outro lado, do ponto de vista dos trabalhadores, havia, por exemplo, a corrente pietista de Zinzendorf a glorificar o trabalhador fiel a seu ofício, que não ansiava por riquezas, mas vivia de conformidade com o modelo apostólico, sendo assim dotado do charisma dos discípulos (p. 128). Um dos componentes fundamentais do espírito do moderno capitalismo, e não apenas deste, mas de toda a cultura moderna: a conduta racional baseada na ideia da vocação, nasceu – segundo se tentou demonstrar nessa discussão — do espírito da ascese cristã (p. 130). De acordo com a opinião de Baxter, preocupações pelos bens materiais somente poderiam vestir os ombros do santo “como um tênue manto, do qual a toda hora se pudesse despir”. O destino iria fazer com que o manto se transformasse numa prisão de ferro (p. 131). Então, finalmente, poder-se-ia traçar o curso de sua transformação histórica (do racionalismo ascético), dos princípios medievais de uma ética secular para um puro utilitarismo, através das diversas ampliações do campo da religiosidade ascética. Somente então é que se poderia avaliar a medida do significado cultural do protestantismo ascético em relação a outros elementos componentes da cultura contemporânea (p. 132). REFERÊNCIA WEBER, Max. A ascese e o espírito do capitalismo. In: ____. A ética protestante e o espírito do capitalismo. Tradução M. Irene de Q. F. Szmrecsányi, Tamás J.M.K. Szmrecsányi. 5. ed. São Paulo: Pioneira, 1987. Elcione Leite de Paula

Liturgia I

Sacrosanctum Concilium, por Elcione Leite de Paula. Importante A instrução litúrgica do Clero: (16) “Nos seminários e casas religiosas de estudos, a disciplina da Sagrada Liturgia esteja entre as matérias necessárias e principais; nas faculdades teológicas, porém, entre as principais” (Cf. Ordinationis S. C. Seminariis et Studiorum Univers., de 12 de junho de 1931). Novidade Sobre a homilia (52): “Recomenda-se vivamente como parte da própria Liturgia a homilia pela qual, no decurso do ano litúrgico, são expostos os mistérios da fé e as normas da vida cristã a partir do texto sagrado; não deve ser omitida sem grave causa nas missas dominicais e nos dias de guarda , celebrados com assistência de povo”. Sobre a importância dos sacramentos e dos sacramentais (Cf. §61). Desafio A restauração do catecumenato (§64): “Restaure-se o catecumenato dos adultos dividido em diversas etapas, introduzindo-se o uso de acordo com o parecer do Ordinário do lugar”. Questões Sobre a administração das exéquias das crianças (Cf. §82): as orientações se encontram no Missal Romano?

Direito Eclesial II

1.Conforme 1Tim 4:14, “o dom espiritual chega até nós pela sagração episcopal. Pela Sagração episcopal se confere a plenitude do Sacramento da Ordem (o sumo sacerdócio, o ápice do ministério sagrado). A Sagração episcopal confere o múnus de santificar, ensinar, reger em hierárquica comunhão com o Chefe (Papa) e os demais membros do Colégio. Pela tradição do Oriente e do Ocidente, mediante a imposição das mãos e as palavras da sagração é concedida a graça do Espírito Santo, de tal modo que os Bispos, de maneira eminente e visível, fazem as vezes do próprio Cristo, Mestre, Pastor e Pontífice e agem em Seu nome” (LG 21). 2.Elementos comuns: Serviço da hierarquia a favor da unidade da Igreja; ouvir leigos que se destacam por virtudes. Elementos diferenciadores: O Decreto sobre o Ministério e a vida dos Presbíteros (PO 5) frisa que na celebração da SS. Eucaristia, Pastores e fiéis são convidados a corresponder com a gratidão ao donativo d’Aquele que pela Sua Humanidade infunde continuamente vida divina nos membros de Seu corpo, pelas comunidades cristãs confiadas aos Presbíteros. Já o Decreto acerca do múnus pastoral dos Bispos na Igreja (CD 10: Documentos Pontifícios 157), se foca mais nas necessidades das Igrejas Particulares, é mais institucional, fala dos Dicastérios e do ofício pastoral dos Bispos. 3.Conforme o Cân. 1009, o episcopado, que no Código de 1917 não era chamado de “ordem sagrada”, foi declarado pelo Concílio Vaticano II “plenitude do sacramento da Ordem... sumo sacerdócio, o ápice do ministério sagrado” (Const. Dogm. Lumen gentium, n. 21). Isto é, as ordens do episcopado, do presbiterato e do diaconato são um ministério sagrado ou ordenado. 4.“Fora da própria jurisdição, o Bispo não pode conferir ordens, a não ser com licença do Bispo diocesano” (Cânon 1017). Podem dar cartas dimissórias para os seculares: “O Administrador diocesano, com o consentimento do colégio dos consultores” (Cân. 1018 § 1). “O Administrador diocesano, o Pró-vigário e o Pró-prefeito apostólico não concedam cartas dimissórias àqueles a quem tiver sido negado o acesso às ordens pelo Bispo diocesano ou pelo Vigário ou Prefeito apostólico” (Cân. 1018 § 2). “Não se concedam cartas dimissórias sem ter antes obtido as informações (escrutínio) e documentos exigidos pelo direito de acordo com os cânones 1050 e 1051” (Cân. 1020). Elcione Leite de Paula.