quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Fé e Luz: movimento de inspiração ecumênica constituído por pessoas com necessidades especiais

Uma Comunidade de Encontro, uma Esperança: sal da terra e luz do mundo (cf. Mt 5,13). “... Quando deres uma festa, chama pobres, estropiados, coxos, cegos; feliz serás, então, porque eles não têm com que retribuir. Serás, porém, recompensado na ressurreição dos justos” [(cf. Lc 14,13-14) Tradução Bíblia de Jerusalém]. 1 INTRODUÇÃO Conforme a fundadora da Comunidade Fé e Luz, Marie-Hélène Mathieu, na segunda-feira da Páscoa de 1971 uma peregrinação a Lourdes chega ao fim e o Movimento de inspiração ecumênica e cristã “Fé e Luz” nasce. A peregrinação foi a resposta ao apelo de um casal, pais de duas crianças com deficiência intelectual. Com frequência, após terem vivido situações angustiantes, os peregrinos tiveram em Lourdes uma experiência de alegria e comunhão profunda. Ao retornar a seus países, seguiram se reunindo regularmente em pequenas comunidades, em encontros de amizade, oração e festa. 2 UM BREVE HISTÓRICO Segundo Jean Vanier, fundador da Arca, a semente do Fé e Luz, depositada no coração dos peregrinos em Lourdes, desenvolveu-se em 1600 comunidades de diferentes tradições cristãs (anglicana; presbiteriana; luterana; comunidades ortodoxas na Rússia, no Oriente Médio, na Romênia, Grécia, em Chipre; outras são interconfessionais), enraizadas em paróquias ou nas igrejas locais, crescem em 85 países. No Brasil, as primeiras comunidades começaram em 1977, no Rio de Janeiro e em São Paulo. Hoje são em torno de 90 comunidades, cobrindo 10 estados. 3 OBJETIVO O objetivo central visa integrar os irmãos com necessidades especiais na comunidade de fé local. O ponto de partida para cada reflexão sobre a deficiência está enraizado nas persuasões fundamentais da antropologia cristã: a pessoa deficiente, também quando está ferida na mente ou nas suas capacidades sensitivas e intelectivas, é um sujeito plenamente humano, com os direitos sagrados e inalienáveis próprios de cada criatura humana. Com efeito, o ser humano independentemente das condições em que se desenrola a sua vida e das capacidades que pode expressar, possui uma dignidade única e um valor singular desde o princípio da sua existência até ao momento da morte natural. A pessoa deficiente, com todos os limites e sofrimentos pelos quais está marcado, obriga-nos a interrogar-nos, com respeito e sabedoria, acerca do mistério do homem. De fato, quanto mais nos movemos nas áreas obscuras e desconhecidas da realidade humana, tanto mais se compreende que precisamente nas situações mais difíceis e preocupantes emerge a dignidade e a grandeza do ser humano. A humanidade ferida e deficiente desafia-nos a reconhecer, acolher e promover em cada um destes nossos irmãos e irmãs o valor incomparável do ser humano criado por Deus para ser filho no Filho (JOÂO PAULO II, 5 jan. 2004. §2). Sua vocação específica é constituída por cerca de 30 membros: pessoas com deficiência mental, seus pais, seus irmãos (ãs) e amigos. As comunidades Fé e Luz reúnem-se pelo menos uma vez por mês, para um encontro de amizade e partilha, de festa, de celebração e oração; há férias comunitárias, retiros, peregrinações. Uma comunidade é um lugar de pertença, para sair da solidão. Fé e Luz é também uma comunidade de fé, de celebrar a vida, falar de Jesus e do Evangelho, rezar, partilhar sofrimentos e esperanças. A festa tem, também, um lugar importante, uma vez que as pessoas especiais nos conduzem à comunhão dos corações quando estamos com elas. 3.1 O EMBLEMA Muita gente pergunta sobre a origem do emblema de Fé e Luz: “este barquinho iluminado pelo sol, que começa a sair das nuvens”. Meb, um pintor com Síndrome de Down, compôs esta obra por ocasião da primeira peregrinação a Lourdes. Nós lhe havíamos dito unicamente: “Você pode desenhar Fé e Luz?”. Ele pediu a sua mãe que lhe lesse o estatuto da peregrinação. Depois iniciou a trabalhar. Intuitivamente, porque ele não sabia contar, colocou no esboço os doze apóstolos. “Jesus, disse Meb, dorme no fundo do barco. Mas nós não devemos ter medo porque seu coração está atento”. Uma legenda acompanhava o desenho: “As nuvens se abrem e tua Luz, Senhor, vem até nós”. Fé e Luz reproduziu a barca e esqueceu de falar de seu autor. É uma injustiça que desejamos reparar. Assim, de agora em diante, cuidaremos e pediremos a todos que cuidem também de colocar o nome de Meb no desenho. Procuremos também ser fiéis ao original, em particular aos doze apóstolos (retirado do Roteiro de Encontros / 1997). 4 ATIVIDADES Confraternização mensal, partilha da palavra de Deus orientada por um roteiro do Movimento; orientação espiritual de um padre ou pastor, viagem anual, quando possível. 4.1 CRONOGRAMA Almoço de Natal, celebração da Páscoa com as comunidades Fé e Luz da cidade, festa junina, encontro de formação, orientado pelo (a) coordenador (a) do Movimento, ou melhor, da família Fé e Luz. 5 CONCLUSÃO Quando já não nos sentimos sós, a vida é transformada. Assim, de acordo com Vanier, pessoas de Igrejas diferentes estão unidas por uma mesma espiritualidade evangélica: “Deus escolheu o que há de louco e fraco no mundo para confundir os sábios e os fortes” (cf. 1Cor 1,27). A pessoa com uma deficiência mental, pela sua simplicidade revela o mistério do coração de Deus, que se fez pequenino para nos revelar o Amor. Cada pessoa, por mais frágil que seja, tem um coração capaz de amar, de acolher Jesus. Porventura, não é isto o essencial para cada um de nós? REFERÊNCIAS MATHIEU, Marie-Hélène. VANIER, Jean. Plus jamais seuls!: l’aventure de foi et lumière. Editora Presses de la Renaissance (3 de nov. de 2011). ASIN: B006GD9WEU. 358 p. Acesso em: http://www.amazon.com/jamais-seuls-French-Edition-ebook/dp/B006GD9WEU CONGRESSO INTERNACIONAL “DIGNIDADE E DIREITOS DA PESSOA COM DEFICIÊNCIA MENTAL”. Alocução de João Paulo II, PAPA. Vaticano, 5 de janeiro de 2004. Acesso em: http://www.feeluz.org. Acesso em: 14 nov. 2012. Vídeo: Fé e Luz, a eficiência do amor, produção Verbo Filmes. Elcione Leite de Paula.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

LIturgia I: obra do teólogo Joseph Ratzinger, Papa Bento XVI

RATZINGER, Joseph. Introdução ao espírito da liturgia. Tradução Jana Almeida Olsansky. 3. ed. São Paulo: Paulinas, 2010. 174p. A obra de Ratzinger trata, como bem expressa o título, de uma profunda introdução ao espírito da liturgia, seu valor histórico, cósmico. Ele opta por dividi-la em quatro partes, sendo elas: Sobre a natureza da liturgia; tempo e espaço na liturgia; liturgia e arte; a configuração da liturgia. No prefácio, o Autor manifesta o desejo de que sua obra seja um novo estímulo para um movimento para a execução correta da Liturgia no seu exterior e interior. O primeiro capítulo da primeira parte do livro delimita o que é Liturgia, sua ligação com a Vida, sobre o seu lugar na realidade. Liturgia seria contemplação, encontro maduro e abertura ao Deus vivo, “um prelúdio da futura e eterna vida a qual, como expõe Agostinho, não é, ao contrário da nossa vida presente, tecida de necessidade e obrigatoriedade, mas sim inteiramente da liberdade de oferecer e dar” (p.10). O segundo capítulo da primeira parte explicita a relação da Liturgia com o Cosmos e a História. O Autor explica que diferente dos exercícios de relaxamento das religiões do Extremo Oriente, a filosofia cristã adotou o esquema de exitus e reditus. Enquanto aqueles exercícios de relaxamento visam por uns momentos a libertação do finito, e possuem por isso força salvadora, a filosofia cristã pensa de modo oposto: o exitus, que é “o livre acto de Criação de Deus visa o reditus, mas isso não significa retirar o que foi criado, mas [...] a autocontemplação da criatura que se encontra no próprio íntimo dela e que responde livremente ao amor de Deus” (p. 23). O terceiro capítulo aborda a transmissão do Antigo para o Novo Testamento, a forma fundamental da Liturgia cristã determinada pela Fé bíblica. O capítulo fala do caráter universal da encarnação da palavra eterna, do encontro de Deus com a Humanidade. Ratzinger conclui o capítulo ao afirmar que a Liturgia cristã é “a Liturgia da peregrinação que tem em vista a transformação do mundo, a qual só acontecerá, quando for ‘Deus tudo em todos’” (p. 38). O primeiro capítulo da segunda parte da obra diz sobre a relação da Liturgia com o espaço e o tempo. O Autor enfatiza a Teologia dos símbolos que nos ligam ao oculto e ao presente. O véu do templo que se rasgou significa a unificação de toda a Humanidade com Deus vivo. “Na celebração litúrgica concretizam-se simultaneamente a inversão de Exitus e Reditus; a partida torna-se-á retorno, a descida de Deus tornar-se-á a nossa elevação” (p. 46). O segundo capítulo relata o significado da igreja como edifício. A síntese da explicação é que “quem concretiza ‘o culto’ é Jesus — estando diante do Pai, Ele torna-se o culto dos seus, enquanto esses se juntam nele e em volta dele” (p. 47). No terceiro capítulo, o qual discorre sobre o altar e a orientação da oração na Liturgia, percebemos o questionamento de Ratzinger acerca do perigo das inovações na Liturgia: “Será que a cruz incomoda a Eucaristia?” (p. 62). O quarto capítulo se conclui ao afirmar que “o tabernáculo deve encontrar o lugar que lhe cabe na arquitectura da igreja, para que a presença do Senhor nos toque concretamente” (p. 67). O quinto capítulo, ao abordar o tempo sagrado defende que “as festas maiores, que são a estrutura do ano da fé, são festas de Cristo e deste modo relacionadas com o único Deus, que se revelou a Moisés junto à sarça ardente e que escolheu Israel para ser o detentor do testemunho da sua singularidade” (p. 82). Já no primeiro capítulo da terceira parte, o Autor destaca a questão das imagens, sobretudo a de Cristo, representado como o verdadeiro filósofo, como o Mestre, vindo da figura do pastor. “Esta imagem da Sagrada Escritura era muito admirada na primeira Cristandade, pois o pastor era simultaneamente a alegoria do Logos: o Logos que tudo criou, que contém todas as imagens originais de todos os seres, ele é o pastor da Criação” (p. 87). O capítulo segundo nos remete à importância da música litúrgica. O relato bíblico descreve a reação do povo ao acontecimento fundamental da libertação no cântico de Moisés. Conforme o Pesquisador, a palavra cantar é uma das mais usadas na Bíblia. “Para os Cristãos, a ressurreição de Cristo que atravessou, Ele próprio, o ‘Mar Vermelho’ da morte, mergulhando no mundo das sombras e empurrando os portões dos cativeiros, foi o verdadeiro Êxodo, eternamente presente no Baptismo [... vida nova]” (p. 102). Ratzinger ainda conclui o capítulo ao assegurar que “na Liturgia, a alegria que sentimos através de Deus e do contacto com a sua presença continuam, também hoje, a ser um poder de inspiração inesgotável” (p. 115). O primeiro capítulo da quarta e última parte da obra de Ratzinger relata sobre o Rito e expressa que “só o respeito pela precedência e pela definição essencial da Liturgia pode proporcionar-nos aquilo que esperamos dela: a celebração da magnitude que se aproxima de nós, que não é arquitectada por nós e que se nos oferece” (p. 125). O segundo capítulo trata sobre a Liturgia e o corpo. O Autor subdivide o capítulo em sete pontos principais da celebração litúrgica: a participação ativa de cada fiel, o sinal da cruz, as posições, os gestos, a voz humana, a veste litúrgica, a matéria, incluindo os sacramentos. Conforme Ratzinger, a posição de “sentados” foi introduzida recentemente, a fim de serem possibilitadas boa audição e compreensão. No capítulo é destacada uma informação significativa, que às vezes reduz a riqueza da inculturação: dança. “A dança não é uma forma de expressão cristã. Já no século III, os círculos gnóstico-docéticos tentaram introduzi-la na Liturgia” (p. 146). As considerações finais deste último capítulo nos convocam ao comprometimento da vida litúrgica: o “agora” e “ainda não”, “único”, “depois”. Cristo toma iniciativa, aproxima-se de nós “com essa particular forma humana, fazendo de nós irmãos para além de todas as fronteiras. É assim que o reconhecemos: é o Senhor”: Jo 21, 7 (p. 165). Elcione Leite de Paula

"Aggiornamento": jubileu de ouro do Concílio Ecumênico do Vaticano II

A função dos “sinais dos tempos” como chave hermenêutica para entender o Concílio Vaticano II Elcione Leite de Paula Este texto trata de uma amostra subjetiva a partir de uma leitura atenta de um dos documentos mais importantes do Concílio Vaticano II, evento cinquentenário rejuvenescedor da história da Igreja, que “usou mais do remédio da misericórdia que o da severidade”. Do ponto de vista da Lumen Gentium, observa-se o ato de repensar as estruturas epistemológicas da pastoral. “Sinais dos tempos” será uma expressão implícita na missão dos membros do corpo místico de Cristo, o qual subsiste na Igreja Católica. Muitas vezes, os “sinais dos tempos” será a justaposição entre a doutrina da Igreja e o mundo ultramoderno. Trata-se do diálogo e do chamado para a reflexão. Os membros do corpo místico de Cristo se esforçam para cumprir sua missão ou são indiferentes ao sofrimento dos irmãos empobrecidos da América Latina? “Enquanto, pois nesta terra a Igreja peregrina longe do Senhor (cf. 2Cor 5,6) [...] pelo batismo configuramo-nos com Cristo” (LG 6e. 7b). “Como o Israel segundo a carne, que peregrinava no deserto, já é chamado Igreja de Deus (2Esdr 13,1; cf. Num 20,4; Dt 23,1 ss), assim o novo Israel que, caminhando no presente tempo, busca a futura cidade perene (cf. Heb 13,14), Igreja de Cristo (cf. Mt 16,18)” (LG 9c). E que tempo em que caminhamos: tempo do facebook que pode ser um veículo de denúncia das nossas estruturas injustas que mantêm o status quo de poucos. Mais importante que as redes sociais é a palavra de Deus que nos inspira a fazer da Eucaristia o banquete de todos: configurados a Cristo, somos oblação e devemos nos esquecer de nossos próprios interesses para viver a comunhão e o compromisso com os abeis, com os mais fragilizados, na construção do Reino do Pai Eterno. “Nestas comunidades, embora muitas vezes pequenas e pobres, ou vivendo na dispersão, está presente Cristo, por cuja virtude se consocia a Igreja uma, santa, católica e apostólica” (LG 26a). O colégio episcopal é a sentinela que cuida das ovelhas dispersas do redil da grei do Senhor. Nós, em virtude do nosso sacerdócio comum, ao redor da mesa do Senhor, refletimos sobre até que ponto vivemos a “missionariedade, natureza da Igreja”? Os Presbíteros, “em favor dos fiéis penitentes ou doentes exercem no mais alto grau o ministério da reconciliação e do alívio” (LG 28a). “Já que, hoje em dia, mais e mais o gênero humano se vai unindo numa unidade civil, econômica e social, tanto mais é mister que os sacerdotes [...] levem todo o gênero humano à unidade da família de Deus” (LG 28e). Os padres diocesanos, em especial, se abrem à missão da Igreja universal ou ainda se limitam à zona de conforto da própria Diocese? Os leigos, fiéis batizados, participam do sacerdócio comum, com “todas as suas obras, preces e iniciativas apostólicas, vida conjugal e familiar [...] e mesmo os incômodos da vida pacientemente suportados, tornam-se ‘hóstias espirituais, agradáveis a Deus, por Jesus Cristo’ (1Ped 2,5)” (LG 34b), ofertadas à Mesa com Jesus. “Também os pobres, os fracos, os doentes e atribulados; os que sofrem perseguição pela justiça saibam unir-se de modo especial a Cristo em seu sofrimento pela salvação do mundo” (LG 41f). “A Igreja, para a qual somos todos chamados em Cristo Jesus e na qual pela graça de Deus adquirimos a santidade, só se consumará na glória celeste, quando chegar o tempo da restauração de todas as coisas (cf. At 3,21)” (LG 48a). Esta é a missão da Igreja militante, exodal, a exemplo de Maria, modelo de Igreja, que tem pressa de servir os empobrecidos pelo nosso narcisismo. Deus mesmo nos fala nos homens “e nos dá um sinal de Seu Reino, para o qual, à vista de tão grande nuvem de testemunhas que nos envolvem (cf. Heb 12,1) e de tal contestação da Verdade do Evangelho, somos poderosamente atraídos” (LG 50b). “Deus benigníssimo e sapientíssimo, querendo realizar a Redenção do mundo, ‘quando veio a plenitude do tempo, enviou seu Filho, feito da mulher, ... para que recebêssemos a adoção de filhos’ (Gál 4,4-5)”: mistério revelado na Igreja que o Senhor constituiu como Seu corpo (LG 52). A expressão “Reino de Deus” permeia todos os capítulos da Constituição Dogmática sobre a Igreja. Ela aparece 38 vezes, dentre elas: “o único Povo de Deus estende-se a todos os povos da terra, recebendo de todos êles seus cidadãos para fazê-los cidadãos de um Reino com índole não terrestre mas celeste” (LG 13b). A Igreja do Concílio Vaticano II deixa de se preocupar com o triunfalismo para ser servidora dos pobres, da humanidade, ao entender que é preciso buscar primeiro o “Reino de Deus”, olhar para além de Jesus. “A partir daí, é possível reler até a afirmação polêmica de Loisy e dizer que Jesus anunciou, sim, o Reino de Deus, não a Igreja; que a Igreja é diferente, sim, do Reino; que a Igreja, porém, nasce e vive do vigor e da interpelação do Reino, como seu sinal, germe” (ALMEIDA, 2005, p. 70). A Igreja recebe o mandato de Cristo pelos Apóstolos para se abrir aos frutos do Espírito e anunciar o Ressuscitado. Anunciar seu Salvador, O qual anunciou o Reino do Pai: “Cristo, feito obediente até à morte e por isso exaltado pelo Pai (cf. Filip 2,8-9), entrou na glória do seu reino” (LG 36a). O Papa Gregório I (séc. VII), o Servo dos Servos, se aproxima da linguagem do Vaticano II, com seu testemunho de “respeito e amor fraterno” (ALMEIDA, 2005, p. 126). Esta é a proposta de Jesus, obedecida pelo Concílio Ecumênico do Vaticano II: anunciar o Reino de paz, esperança, amor. Na atitude do lava-pés, a Igreja se questiona novamente, após meio século, se é uma Igreja mais samaritana, mais ministerial, “quenótica”, dialogal, que ufanista. REFERÊNCIAS ALMEIDA, Antônio José de. Lumen gentium: a transição necessária. São Paulo: Paulus, 2005. DOCUMENTOS PONTIFÍCIOS 149. A Igreja. Constituição Dogmática Lumen Gentium. Concílio Vaticano II. 7. ed. Petrópolis: Vozes, 1967.

História do Cristianismo moderno: Weber

História do Cristianismo Moderno Aluno: Elcione Leite de Paula Resenha: A perda de tempo através da vida social, conversas ociosas, do luxo, e mesmo do sono além do necessário para a saúde — seis, no máximo oito, horas por dia — é absolutamente indispensável do ponto de vista moral. Não se trata assim do “Time is Money” de Franklin, mas a proposição lhe é equivalente no sentido espiritual: ela é infinitamente valiosa, pois, de toda hora perdida no trabalho redunda uma perda de trabalho para a glorificação de Deus [...] existe o domingo, e, segundo Baxter, são os que não estão absortos em sua vocação, que nem para Deus têm tempo, na hora existente para esse mister (p. 112). A ascese sexual do puritanismo somente difere no grau, e não na essência, da ascese monacal; e, de acordo com a concepção puritana do casamento, como meio desejado por Deus para aumento de Sua glória, de acordo com o mandamento “Crescei e Multiplicai-vos”. Mas, o mais importante é que o trabalho constitui, antes de mais nada, a própria finalidade da vida. A expressão paulina “Quem não trabalha não deve comer” é incondicionalmente válida para todos. A falta de vontade de trabalhar é um sintoma da ausência do estado de graça (p. 113). Princípios éticos para a reforma do mundo não podiam ser encontrados no rol dos pensamentos de Lutero, que nunca conseguiu libertar-se completamente da indiferença paulina pelo mundo. Este, portanto, devia ser aceito como era, e só isto já podia constituir-se num dever religioso (p. 114). Também de acordo com a ética Quaker é a vida profissional do homem que lhe dá certo treino moral, uma prova de seu estado de graça para a sua consciência, que se expressa no zelo e no método, fazendo com que ele consiga cumprir a sua vocação [...] Na concepção puritana da vocação, a ênfase sempre é posta neste caráter metódico da ascese vocacional, e não, como em Lutero, na aceitação do destino irremediavelmente assinalado por Deus (p. 115). A parábola do servo que foi desaprovado por não ter aumentado a soma que lhe foi confiada serve para expressar isso diretamente (p. 116). A teoria segundo a qual a Lei Mosaica perdeu sua validez através do Novo Testamento, apenas no sentido de conter preceitos cerimoniais e puramente históricos aplicáveis somente ao povo judeu, de resto permanecendo válida e, devendo ser obedecida como uma expressão do direito natural, permitiu, de um lado, eliminar os elementos inconciliáveis com a vida moderna, e, do outro, o fortalecimento do espírito de sóbria e farisaica legalidade, que caracterizava o ascetismo secular dessa forma de protestantismo, através de seus inúmeros traços em comum com a moralidade do Velho Testamento (p. 118). A sociedade monárquico-feudal defendia os que queriam divertir-se contra a moral da burguesia ascendente e as convenções ascéticas insubmissas à autoridade, da mesma forma que a atual sociedade capitalista tende a proteger os que querem trabalhar contra a moralidade de classe do proletariado e do anti-autoritário sindicato (p. 119-120). O ódio feroz dos puritanos, contra tudo que cheirasse a superstição, contra todas as reminiscências da salvação mágica ou sacramental opunha-se, tanto às festividades cristãs do Natal, como à árvore de maio, e também a toda arte religiosa espontânea (p. 120-121). Mas, o que era ainda mais importante: a avaliação religiosa do infatigável, constante e sistemático labor vocacional secular, como o mais alto instrumento de ascese, e, ao mesmo tempo, como o mais seguro meio de preservação da redenção da fé e do homem, deve ter sido presumivelmente a mais poderosa alavanca da expressão dessa concepção de vida, que aqui apontamos como “espírito” do capitalismo (p. 123). Transcrevemos aqui um trecho de John Wesley. Isto, porque mostrara que os líderes desses movimentos ascéticos compreendiam muito bem as relações aparentemente tão paradoxais que aqui analisamos. Assim escreve ele: “[...] Os metodistas tornaram-se laboriosos e econômicos em toda parte; consequentemente, aumenta a sua riqueza. E, proporcionalmente, crescem neles o orgulho, as paixões, os apetites da carne e do mundo, e a soberbia da vida. Assim, embora permaneça a forma da religião, seu espírito rapidamente se desvanece. Não haverá algum meio para evitar essa decadência da pura religião? Não devemos deixar de recomendar às pessoas que sejam laboriosas e aconômicas. Devemos exortar todos os cristãos a ganhar tudo o que for possível, e a economizar o máximo possível; isto é, em outras palavras, a se enriquecerem” (p. 126). Então aparece, como se pode ver em Dwden, na figura fantasiosa de Robinson Crusoe, o isolado homem econômico, que desenvolve atividades missionárias, em vez da procura interior individual do reino dos céus, na “feira da vaidade” do apressado peregrino de Bunyan (p. 127). Por outro lado, do ponto de vista dos trabalhadores, havia, por exemplo, a corrente pietista de Zinzendorf a glorificar o trabalhador fiel a seu ofício, que não ansiava por riquezas, mas vivia de conformidade com o modelo apostólico, sendo assim dotado do charisma dos discípulos (p. 128). Um dos componentes fundamentais do espírito do moderno capitalismo, e não apenas deste, mas de toda a cultura moderna: a conduta racional baseada na ideia da vocação, nasceu – segundo se tentou demonstrar nessa discussão — do espírito da ascese cristã (p. 130). De acordo com a opinião de Baxter, preocupações pelos bens materiais somente poderiam vestir os ombros do santo “como um tênue manto, do qual a toda hora se pudesse despir”. O destino iria fazer com que o manto se transformasse numa prisão de ferro (p. 131). Então, finalmente, poder-se-ia traçar o curso de sua transformação histórica (do racionalismo ascético), dos princípios medievais de uma ética secular para um puro utilitarismo, através das diversas ampliações do campo da religiosidade ascética. Somente então é que se poderia avaliar a medida do significado cultural do protestantismo ascético em relação a outros elementos componentes da cultura contemporânea (p. 132). REFERÊNCIA WEBER, Max. A ascese e o espírito do capitalismo. In: ____. A ética protestante e o espírito do capitalismo. Tradução M. Irene de Q. F. Szmrecsányi, Tamás J.M.K. Szmrecsányi. 5. ed. São Paulo: Pioneira, 1987. Elcione Leite de Paula

Liturgia I

Sacrosanctum Concilium, por Elcione Leite de Paula. Importante A instrução litúrgica do Clero: (16) “Nos seminários e casas religiosas de estudos, a disciplina da Sagrada Liturgia esteja entre as matérias necessárias e principais; nas faculdades teológicas, porém, entre as principais” (Cf. Ordinationis S. C. Seminariis et Studiorum Univers., de 12 de junho de 1931). Novidade Sobre a homilia (52): “Recomenda-se vivamente como parte da própria Liturgia a homilia pela qual, no decurso do ano litúrgico, são expostos os mistérios da fé e as normas da vida cristã a partir do texto sagrado; não deve ser omitida sem grave causa nas missas dominicais e nos dias de guarda , celebrados com assistência de povo”. Sobre a importância dos sacramentos e dos sacramentais (Cf. §61). Desafio A restauração do catecumenato (§64): “Restaure-se o catecumenato dos adultos dividido em diversas etapas, introduzindo-se o uso de acordo com o parecer do Ordinário do lugar”. Questões Sobre a administração das exéquias das crianças (Cf. §82): as orientações se encontram no Missal Romano?

Direito Eclesial II

1.Conforme 1Tim 4:14, “o dom espiritual chega até nós pela sagração episcopal. Pela Sagração episcopal se confere a plenitude do Sacramento da Ordem (o sumo sacerdócio, o ápice do ministério sagrado). A Sagração episcopal confere o múnus de santificar, ensinar, reger em hierárquica comunhão com o Chefe (Papa) e os demais membros do Colégio. Pela tradição do Oriente e do Ocidente, mediante a imposição das mãos e as palavras da sagração é concedida a graça do Espírito Santo, de tal modo que os Bispos, de maneira eminente e visível, fazem as vezes do próprio Cristo, Mestre, Pastor e Pontífice e agem em Seu nome” (LG 21). 2.Elementos comuns: Serviço da hierarquia a favor da unidade da Igreja; ouvir leigos que se destacam por virtudes. Elementos diferenciadores: O Decreto sobre o Ministério e a vida dos Presbíteros (PO 5) frisa que na celebração da SS. Eucaristia, Pastores e fiéis são convidados a corresponder com a gratidão ao donativo d’Aquele que pela Sua Humanidade infunde continuamente vida divina nos membros de Seu corpo, pelas comunidades cristãs confiadas aos Presbíteros. Já o Decreto acerca do múnus pastoral dos Bispos na Igreja (CD 10: Documentos Pontifícios 157), se foca mais nas necessidades das Igrejas Particulares, é mais institucional, fala dos Dicastérios e do ofício pastoral dos Bispos. 3.Conforme o Cân. 1009, o episcopado, que no Código de 1917 não era chamado de “ordem sagrada”, foi declarado pelo Concílio Vaticano II “plenitude do sacramento da Ordem... sumo sacerdócio, o ápice do ministério sagrado” (Const. Dogm. Lumen gentium, n. 21). Isto é, as ordens do episcopado, do presbiterato e do diaconato são um ministério sagrado ou ordenado. 4.“Fora da própria jurisdição, o Bispo não pode conferir ordens, a não ser com licença do Bispo diocesano” (Cânon 1017). Podem dar cartas dimissórias para os seculares: “O Administrador diocesano, com o consentimento do colégio dos consultores” (Cân. 1018 § 1). “O Administrador diocesano, o Pró-vigário e o Pró-prefeito apostólico não concedam cartas dimissórias àqueles a quem tiver sido negado o acesso às ordens pelo Bispo diocesano ou pelo Vigário ou Prefeito apostólico” (Cân. 1018 § 2). “Não se concedam cartas dimissórias sem ter antes obtido as informações (escrutínio) e documentos exigidos pelo direito de acordo com os cânones 1050 e 1051” (Cân. 1020). Elcione Leite de Paula.

Resenha de eclesiologia

BRIGHENTI, Agenor. A Igreja do futuro e o futuro da Igreja: perspectivas para a evangelização na aurora do terceiro milênio. São Paulo: Paulus, 2001 (Coleção comunidade e missão). Agenor Brighenti é licenciado em Filosofia e graduado em Teologia pela Universidade do Sul de Santa Catarina. É especialista em Pastoral Social e Planejamento Pastoral pelo Instituto Teológico-Pastoral do Celam e doutor em Ciências Teológicas e Religiosas pela Universidade Católica de Louvain (Bélgica). Atualmente, é professor no Programa de Pós-graduação em Teologia da PUC-Paraná. Este pequeno tratado ou livro é um aperitivo que revigora o gosto da nossa consciência, despertando-a para a necessidade da abertura à realidade pluricultural e enriquecedora. A introdução diz que a Igreja, portadora de palavra de salvação, também se encontra na encruzilhada, cercada pela crise holística, de paradigmas. Ela precisa reelaborar sua autocompreensão e sua compreensão de Deus e do mundo (p. 5-6). “Aconteceria um verdadeiro “kairós” no coração da história, um novo “sinal dos tempos”, em que o Espírito Santo estaria dirigindo forte apelo de renovação às religiões institucionais, em particular ao cristianismo [...]” (p. 7). O fenômeno da experiência religiosa é complexo. O capítulo primeiro nos atenta para o fenômeno da globalização, já marcado pelos grandes descobrimentos geográficos e conquistas do século XVI. É próprio do ser humano buscar situar-se em horizontes cada vez mais amplos (p. 9). O texto menciona Mircea Eliade, ao dizer da descoberta das culturas como maior novidade do século XX. São citados alguns filósofos, dentre eles, Levinás, o qual trabalha o conceito de alteridade. O outro não é necessariamente mais herege nem “meu inferno”, como pensou Sartre, mas a baliza do meu “eu”; a tomada de consciência da presença do outro, enquanto gratuidade, e da dimensão sabática da existência (p. 11). Quanto à experiência religiosa no contexto da crise da modernidade é inegável a existência de processos de complementaridade, de aprendizado comum, que no Ocidente significa relativizar muitas coisas, elaborar novas sínteses. Em seus metarrelatos atuais, o cristianismo tornou-se uma experiência religiosa marcadamente ocidental e consequentemente implicado em cheio na crise da modernidade (p. 14). O catolicismo, de modo particular na América Latina, é plural. “Na América Latina, o catolicismo popular é o resultado da transposição da religiosidade ibérica pré-tridentina e da ulterior marca tridentina, marca esta levada a cabo pelo processo de romanização no século XIX, na perspectiva da Contra-Reforma” (p. 15). O catolicismo tradicional popular sobreviveu com a carência da presença do clero: com prática religiosa explicitada em devoções herdadas das culturas afros e indígenas, por exemplo. “No seio do catolicismo, há outro tipo de prática religiosa que se poderia denominar ‘catolicismo comprometido’, em que predomina a fisionomia eclesial impressa pelo Concílio Vaticano II [...]” (p. 16). Outra vertente do catolicismo é a reacionária. “É a principal responsável pelo processo de ‘involução eclesial’. A restauração passa sobretudo pela esmerada formação dos quadros eclesiásticos na doutrina tradicional, a quem os leigos devem estar submissos” (p. 18). O catolicismo universalista é constituído por movimentos com membros recrutados nas camadas de classe média. “São a extensão dos braços do catolicismo reacionário. Isso não quer dizer que seus membros sejam necessariamente reacionário” (p. 18). “De par com a experiência religiosa dos grupos evangélicos pentecostais de cunho protestante, frente aos quais está numa acirrada disputa do mercado, está o catolicismo pentecostal. “O catolicismo emancipado é formado por segmentos de católicos ditos ‘adultos na fé’ e que advogam uma Igreja em continuidade com as intuições e teses do Concílio Vaticano II” (p. 20-21). O catolicismo descomprometido “caracteriza-se pelo denominado ‘substrato católico’ enraizado na cultura, que faz parte da tradição em termos de herança familiar e que se expressa em obrigações formais e sacramentalização ocasional. “Com a consciência ecumênica criada pelo Concílio Vaticano II, do lado católico, e com a criação do Conselho Mundial de Igrejas, do lado protestante, muito já se tem caminhado no sentido de um diálogo religioso sincero e construtivo” (p. 23). O autor explora um pouco sobre a Nova Era, centrada sobre a sensibilidade e o afeto, a integração do espiritual e material, e a iluminação da inteligência (gnosticismo)” (p. 26). O capítulo segundo aponta propostas para além da encruzilhada: uma Igreja católica a partir da universalidade das Igrejas particulares (ou locais) e sua efetiva abertura às demais Igrejas (p. 29). Uma outra proposta é a de uma Igreja inculturadora do evangelho e dos evangelizadores, com missão tanto ad intra quanto ad extra (p. 32). Uma Igreja resgatadora do simbólico, menos racional, nem esotérica.Uma Igreja que uma salvação com libertação histórica, que não seja intimista, mas encarnada. Uma Igreja com “coração sensível”. É o lado mãe da Igreja, aquela que escuta, perdoa, é mais samaritana. Uma Igreja que une libertação social com libertação pessoal; salvação apontada para uma ação transformadora da sociedade (p. 37). Uma Igreja que torna presente o espiritual no mundo secular, com cosmovisão ecológico-planetária, que cuida da Criação. “Na fidelidade à herança espiritual de Francisco de Assis, é inadmissível um cristianismo sem sensibilidade ecológica (p. 39). Por fim, o oitavo modelo de Igreja que é aquela que liga e religa o ser humano com Deus e o mundo. “A Igreja do futuro terá sua missão enfocada a partir da tríade que caracteriza o papel de toda religião: ser o elo que liga e religa homem-Deus-natureza” (p. 40). O último capítulo acena cinco atitudes do futuro para a Igreja, desde a encruzilhada: afrontar o risco do relativismo religioso, sem interromper o diálogo ecumênico e macroecumênico; propiciar uma experiência pessoal do sagrado, a “religião do coração” (encontro pessoal com Jesus Cristo); ser, quem sabe, o último reduto da utopia; buscar uma compreensão mais profunda da Revelação; renunciar à falsa segurança do fundamentalismo (intolerância, triunfalismo, proselitismo). Elcione Leite de Paula.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Liturgia II: oficina de liturgia na feira de profissões 2012 do CES/JF

Elcione Leite de Paula ARA: pedra sobre o altar na qual se colocam as relíquias dos Santos. BALDAQUINO: trono do Santíssimo Sacramento. BANDEJA DE COMUNHÃO: pequeno prato usado para evitar que perca alguma partícula das espécies consagradas. CERIMONIAL DOS BISPOS: livro que reúne as rubricas de todas as celebrações de cunho episcopal. CÍRIO PASCAL: é a vela abençoada e marcada com símbolos próprios que se acende com fogo santo na vigília pascal. CONOPÈU: véu que cobre a porta do sacrário. Varia segundo a cor do tempo litúrgico. CRAVOS: 5 primeiros pregos enfeitados com cera com que se marca a cruz do círio pascal, em memória das 5 chagas do Ressuscitado. ESTAUROTECA: relicário em formato cruciforme para portar as relíquias da Santa Cruz. FALDISTÓRIO: é usado pelo bispo para se sentar ou se ajoelhar em determinados momentos da liturgia. Pequeno banco sem encosto. Anterior à cátedra. FÍSTULA: objeto próprio da liturgia pontifícia, usado para comungar da espécie do vinho. FLABELO: leque de plumas, representação do bater das asas dos serafins, usado junto à sedia gestatória. HISSOPO: objeto para aspergir a assembleia ou um objeto com água benta. LUNETA e LUNULA: parte redonda e em forma de meia lua, do ostensório, onde o Santíssimo fica exposto. MATRACA: objeto de madeira que produz um som menos estridente que os sinos e os substitui na quaresma. PÁLIO: objeto constituído de um tecido decorado, sob o qual se transporta o Santíssimo de forma solene. PALMATÓRIA: castiçal usado junto ao bispo, na forma extraordinária, e portado por um acólito assistente, para representar sua dignidade. PONTIFICAL ROMANO: usado pelo bispo na Crisma, etc. PRESBITERAL: substitui o tradicional sacramentário. RELICÀRIO: utilizado para expor à veneração as relíquias dos santos. RITUAIS: livros que contém os ritos de sacramentos e sacramentais. RITO DE PIO V: livro litúrgico oficial para celebrar a Missa, em latim, antes do Concílio Vaticano II. SACRÁRIO: objeto quadrado para conserva a hóstia consagrada, presença real de Jesus Eucarístico. SACRAS: São orações emolduradas que figuram na forma extraordinária do rito romano no centro e em ambos os lados do altar com os textos do ordinário da Santa Missa recitados em cada um desses lugares. TINTINÁBULO: insígnia basilical, geralmente com o triregnum e as chaves, com um sino. Junto com a umbela, é levado à frente das procissões. TRONO DO SANTÍSSIMO: geralmente metálico, em formato de coluna ou baldaquino que sustenta o ostensório quando da exposição do Santíssimo. UMBELA: objeto em formato de guarda-chuva, usado para transportar o Santíssimo de forma menos solene que o pálio. http://www.salvemaliturgia.com/p/vocabulario-de-alfaias-e-objetos.html Acesso em 22/10/12

Planejamento pastoral

APRESENTAÇÃO Os conselhos de Jetro: Jetro, sogro de Moisés, “ouviu falar de tudo quanto Deus tinha feito em favor de Moisés e de Israel, seu povo, quando o Senhor fizera Israel sair do Egito” (Ex 18,1). Foi, então, visitar Moisés no deserto, “onde estava acampado no monte de Deus” (v. 5). Jetro alegrou-se ao ouvir Moisés falar sobre o que o Senhor fizera ao faraó e aos egípcios por causa de Israel, sobre as dificuldades que o Povo de Deus enfrentara e como fora salvo. Por tudo isso, louvou o Senhor e lhe ofereceu holocaustos. Um dia, porém, acompanhou de perto os trabalhos de Moisés. Viu que ele sentou-se para julgar as questões do povo, o qual ficou diante de Moisés o dia inteiro. Então, não se conteve, e disse a seu genro: “Que estás fazendo com o povo? Por que apenas tu ficas aí sentado, com tanta gente parada diante de ti desde a manhã até à tarde?” Moisés respondeu ao sogro: “É que o povo vem a mim para consultar a Deus. Quando têm alguma questão, vêm a mim para que eu decida e lhes comunique os decretos e as leis de Deus”. Mas o sogro de Moisés disse-lhe: “Não está bem o que fazes. Acabarás esgotado, tu e este povo que está contigo. É uma tarefa acima de tuas forças. Não poderás executá-la sozinho. Agora, escuta-me: vou dar-te um conselho, e que Deus esteja contigo. Tu deves representar o povo diante de Deus e levar até ele os problemas. Esclarece o povo a respeito dos decretos e das leis, e dá-lhe a conhecer o caminho a seguir e o que deve fazer. Mas procura entre todo o povo homens de valor, que temem a Deus, dignos de confiança e inimigos do suborno, e estabelece-os como chefes de mil, de cem, de cinqüenta e de dez. Eles julgarão o povo em casos cotidianos. A ti levarão as questões de importância maior, decidindo eles mesmos as menores. Assim eles repartirão contigo o peso e tu ficarás aliviado. Se assim procederes, serás capaz de manter-te de pé quando Deus te der ordens, e o povo poderá chegar em segurança a seu destino” (Ex 18,14b-23). 1- Avaliação da realidade (social e eclesial: VER): “A Igreja é por natureza, missionária” (Beato João Paulo II). Caso a Igreja Particular faça a opção por ser missionária, opção preferencial pelos pobres, conseguirá prestar uma grande contribuição na construção do Reino, numa sociedade pluricultural. Há necessidade de o pároco assumir atividades extras em benefício próprio? Levando em consideração o tempo dedicado a estas funções como preparação e carga horária das mesmas, sabemos que a semana tem sete dias e cada dia com apenas vinte e quatro horas. Um bom descanso, uma alimentação equilibrada e até mesmo o lazer são primordiais a fim de se obter um bom humor a fim de exercer a função pastoral. No intuito de se evitar o desgaste desnecessário, seria mais apropriado que as atividades extras fossem exercidas pelo coadjutor, uma vez que o pároco pode deixar tempo livre para os imprevistos e sua dedicação ao pastoreio implica disponibilidade integral. A quem convidar para o planejamento pastoral paroquial? O maior número possível de agentes: CPP, ministros extraordinários, catequistas, movimentos, irmandades,agentes da área da saúde, da educação, animadores de grupos de reflexão, serviços, organismos, pessoas que criam a opinião pública, representantes da sociedade civil, congregações religiosas (quando houver)... A respeito das pessoas que desejamos atingir: quais suas necessidades, preocupações, angústias, alegrias, ideais, valores, cultura...? 2- Prioridades: A prioridade principal é a de que o padre a imagem do bom pastor na vida de seus filhos espirituais. A ausência do pai que cumpre com o seu papel de orientar seus filhos espiritualmente acarreta um grande desserviço à Messe. O pai deve conhecer seus filhos e filhas pelo nome. Para isso, precisa andar a pé e sem pressa pela paróquia, visitar as pessoas, atendê-las na medida do possível, gastar tempo com elas, ouvi-las, dialogar com elas, visitar os enfermos. Tais atitudes simples, práticas estão em extinção. São essenciais para o conhecimento da realidade (econômica, política, social, cultural, religiosa) em questão. A Missa Dominical na Matriz, em especial, é fundamental, além de formação pastoral conforme a disponibilidade da maioria dos agentes de pastoral, considerando as estratégias para se alcançar os objetivos almejados. A parábola do camponês nos ensina que o planejamento não é mágico, mas é um processo de crescimento. Entender que no planejamento participativo o poder é serviço, é circular e tem o perfil do grupo. Descentralizar a ação. Confiar na criatividade de todos: O “novo” aparece de baixo para cima. Muita novidade é sufocada, porque sempre aparece alguém dizendo que “não é assim que se faz”. 3- Justificativa: A formação pastoral e o encontro semanal na Missa deve apontar e animar nos jovens e demais leigos a oportunidade de uma maior união nos trabalhos da comunidade e na missão da Igreja na transformação da sociedade com o testemunho de seus membros, “filhos da luz” (cf. Jo 1,1-18). “O que ama o seu irmão, permanece na luz...(1Jo 2,10). 4- Objetivo geral (ILUMINAR): Para quê? O objetivo geral da Comunidade requer o quê? O foco no querigma dos apóstolos, da comunidade primitiva, do primeiro anúncio nosso também: “Ide, portanto, e fazei que todas as nações se tornem discípulos, batizando-s em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo...” (Mt 28,19). O objetivo visa cultivar nos agentes o contínuo processo de evangelização e catequese, a curto, médio e longo prazo. Não se pode esquecer “o que o Espírito diz às igrejas” (Ap 2,7.11.17.29; 3,6.13.22), aos fiéis de sete igrejas da Ásia Menor. Faz-lhes elogios, mas também advertências e reprovações. Faz-lhes promessas e garante-lhes sua assistência permanente, convidando-os a continuarem unidos no amor e na fidelidade. Contar, se possível, com a ajuda de algum assessor (pastoralista, teólogo, etc.), para iluminar a realidade com a luz da Palavra de Deus. Um retiro espiritual pode ser muito útil nesse ponto da caminhada. 5- Objetivos específicos (atividades, recursos humanos e materiais, período, avaliação: propostas de AÇÃO): Uma boa catequese com salas apropriadas para cada faixa etária; diálogo ecumênico, interreligioso e respeitoso com as pessoas; homilias e testemunho transparentes; parcerias; trabalhos voluntários dos fiéis, principalmente conforme suas áreas profissionais nas principais pastorais sociais; trabalhos sociais com a percentagem do dízimo para devidos fins; incentivar a criação de grupos de reflexão (para cultivar nos agentes de pastoral o senso de pertença à comunidade e compromisso com a mesma). A cada ano, os agentes de pastoral se reunirão com o (s) padre (s) para uma avaliação e planejamento participativo do ano seguinte. Anexo a este encontro, revisar prioridades do orçamento financeiro para o próximo período. Quatro virtudes deverão ser buscadas para nossa ação pastoral: unidade, criatividade, visibilidade e objetividade. Unidade, porque, sem ela, em vez agentes do Reino, estaremos compactuando com o reino da divisão e da maldade. Disse Jesus: “Nisto conhecerão todos que sois os meus discípulos: se vos amardes uns aos outros” (Jo 13,35). Criatividade, porque somos chamados a continuar não uma obra qualquer, mas a do próprio Jesus, que disse: “Quem crê em mim fará as obras que eu faço, e fará ainda maiores do que estas” (Jo 14,12). Visibilidade, porque se não falarmos do que fazemos, acabarão dizendo que nada fazemos. Disse Jesus: “Se eles se calarem, as pedras gritarão” (Lc 19,40). E ainda: “O que vos digo na escuridão, dizei-o à luz do dia; o que escutais ao pé do ouvido, proclamai-o sobre os telhados” (Mt 10,27). Objetividade, porque a ação pastoral trabalha com prioridades e não com escolhas confusas; porque as propostas da ação pastoral devem ser claras. Disse Jesus: “Seja o vosso sim, sim, e o vosso não, não. O que passa disso vem do Maligno” (Mt 5,37). 6- Avaliação geral: Localizar os problemas que ocorreram no desenvolvimento da ação (atividades). Fazer o confronto do resultado com o que foi planejado numa assembleia paroquial, por exemplo. Descobrir as causas dos desvios e encontrar alternativas que orientem a ação futura (uma ação dialogal, aberta a críticas e sugestões). “Dei-vos o exemplo para que, como eu vos fiz, também vós o façais” (Jo 13,15). Identificar problemas e acertos durante a execução da programação; Confrontar constantemente os resultados com o Objetivo, com as prioridades, os programas e os projetos assumidos: Quanto conseguimos? Fomos eficientes? Qual foi a qualidade do trabalho? Fizemos bem, ou apenas fizemos? Os resultados foram válidos? Construíram algo? Como se sentem as pessoas? Produziram-se bons relacionamentos? Procurar descobrir as causas dos erros, para acertar da próxima vez; Estar pronto para efetuar adaptações, correções, ajustes a qualquer hora; Dispor-se a aceitar sugestões e críticas, e fazer delas trampolim para uma ação mais eficaz; Criar formas diversas para que a avaliação se faça de forma espontânea e para que se concretize a eventual necessidade de correção; Abrir espaços para avaliação junto ao povo (pequenos questionários a serem preenchidos após as missas, ou na secretaria); Propiciar momentos, nas reuniões ordinárias do CPP, para avaliar os programas e projetos; Contar com 2 ou 3 pessoas que tenham a tarefa específica de chamar a atenção de todos sobre a caminhada, através de comentários pessoais, observações que tenham coletado da comunidade, críticas ouvidas no meio do povo, memorizações do processo; Montar celebrações da penitência tendo o Objetivo geral como referencial para o exame de consciência. Montar celebrações de ação de graças; Destacar, nas missas e celebrações da comunidade, os passos bem sucedidos; Agendar, para um semestre antes do prazo final de execução, uma assembléia para: avaliação geral do planejamento e proposição de um novo processo/etapa de planejamento; Importante é manter o espírito e a prática de planejamento; Celebrar a avaliação, com ato penitencial, tendo em conta a realização do Plano, do Objetivo geral e das prioridades. REFERÊNCIA http://www.cleris.org/clerus/dati/2007-11/24-13/PLANEJAMENTO.html Acesso 4/6/2012. Elcione Leite de Paula.

TCC de licenciatura em filosofia: O café filosófico como possibilidade de refletir a sociedade

Revista Eletrônica Print by http://www.ufsj.edu.br/revistalable .et....a, São João del-Rei/MG, n.13, 2011 O CAFÉ FILOSÓFICO COMO POSSIBILIDADE DE REFLETIR A SOCIEDADE Elcione Leite de Paula1 Orientador: Dr. Tiago Adão Lara Resumo: O café filosófico iniciou-se no ano de 1992, em Paris. Em Juiz de Fora ganhou vida por meio do casal de professores graduados em Filosofia: Tiago Adão Lara e Maria Helena Falcão Vasconcelos. Estes promovem uma das modalidades existentes nesta cidade. Na mesa do bar, o participante degusta as expressões contemporâneas da Filosofia com linguagem musical, artística e até poética. Este trabalho visa incentivar a participação da sociedade nos cafés filosóficos, haja vista sua preocupação em atender as demandas do solo rugoso da vida. Palavras-chave: Degustar. Pensamento.Llinguagem. Movimento. Resumen: El café filosófico empezó al año 1992, en Paris. En Juiz de Fora logró vida por médio del pareja de maestros graduados en Filosofia, Tiago Adão Lara e Maria Helena Falcão Vasconcelos. Ellos promoven una de lãs modalidades del café en esta ciudad. A la mesa del bar, el participante degusta expresiones contemporâneas de la Filosofia por la lenguaje musical, artistica e mismo poetica. Esto trabajo proponese incitar a la participación de la sociedad a los cafés filosóficos, ya que tienen la preocupación de atender a lãs demandas del suelo pliegoso de la vida. Palabras-llave: Degustar, pensamiento, lenguaje, movimiento. 1 Graduado em Filosofia pelo Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora. semielcio@bol.com.br 64 | P a g e PAULA, Elcione Leite de Revista Eletrônica Print by http://www.ufsj.edu.br/revistalable .et....a, São João del-Rei/MG, n.13, 2011 1 Introdução café filosófico como possibilidade de refletir a sociedade é uma hipótese ruminada numa luta entre gigantes: o eu que é cada um na disputa do poder com os “monstros interiores” do ativismo hodierno. Dentre muitas leituras, este trabalho conta com a contribuição de filósofos brasileiros como: Marcondes em Perca tempo: é no lento que a vida acontece, Adão Lara em A escola que não tive... o professor que não fui e Silva em seu texto Função social do filósofo. 2 HISTÓRICO CONTRIBUIÇÃO DOS CAFÉS FILOSÓFICOS PARA O ÓCIO CRIATIVO Hodiernamente, além das aulas de filosofia, o professor pode incentivar o aluno a participar das variadas modalidades de café filosófico, que podem proporcionar nestes o prazer do pensar filosófico nas horas livres, i.é, de ócio criativo. 2.1 Origem do Café Filosófico como Possibilidade de Atividade Livre O café filosófico teve como parteiro o Café de Phares em 1992, aos domingos, na Praça da Bastilha de Paris, organizado pelo filósofo Marc Saltet. Em 2001, surgiu em Natal, tendo como principal idealizador Oscar Federico Bauchwitz, o Café Potiguar. Este, a exemplo dos demais eventos do gênero que têm se espalhado pelo país, inspirouse nos cafés franceses, em especial no Café de Phares. Na mesma época, o café filosófico tomou corpo nas ruas (cafeterias, bares e restaurantes) extra-acadêmicos paulistas e no dia vinte de fevereiro de 1993 inaugurou-se em Juiz de Fora a Nova Acrópole; ONG Internacional com matriz na Argentina desde 1957. O 65 | P a g e PAULA, Elcione Leite de Revista Eletrônica Print by http://www.ufsj.edu.br/revistalable .et....a, São João del-Rei/MG, n.13, 2011 2.1.1 Histórico Do Café Filosófico Em Juiz De Fora Em 2003, o café filosófico juizforano ganhou vida por meio do casal de professores de Filosofia: Tiago Adão Lara e Maria Helena Falcão Vasconcellos. No ano de 2005, a Coordenação de Filosofia da UFJF iniciou o Café no Restaurante Boulevard 40 no Bairro São Pedro, atualmente orientado pelos professores de Filosofia da Universidade Laélia Cardoso e Juarez Sofiste. Em 2006, ambos os professores, junto com a psicóloga clínica Rosângela Rossi, promoveram Quartas Filosóficas na Casa de Cultura. O curso, que pode ser identificado como mais uma modalidade de Café, é realizado em módulos, com o objetivo geral de pensar bem para viver melhor. O professor Tiago nos lembra que o cafezinho faz parte da identidade nacional e é um convite a um bate-papo democrático, visto que a filosofia nasceu na Praça de Atenas. 2.2 Ao Sabor de cada Café Filosófico Apoiada pelos cafés filosóficos, a Filosofia vence o estigma de que é um exercício de abstração desprovido de valor, fora da realidade. Para o professor Lara, tal rótulo pejorativo pode ter sido disseminado a partir do golpe militar com o interesse político de coibir a influência do espírito crítico da disciplina. Com a volta da amiga do saber ao cotidiano, pretendemos, com este trabalho, demonstrar que a Filosofia não é mera verborréia, mas pode ser uma acessível atividade coletiva do filosofar. Da doméstica ao professor de Filosofia, todos são parteiros de suas idéias. A Filosofia é exercício de cidadania. Ilza Matias de Souza (UFRN) ressalta que a importância do café filosófico se deve ao fato de que ele inaugurou o comportamento de audiência de textos filosóficos nas ruas, fora dos limites dos muros frios da universidade. 66 | P a g e PAULA, Elcione Leite de Revista Eletrônica Print by http://www.ufsj.edu.br/revistalable .et....a, São João del-Rei/MG, n.13, 2011 Tornou-se tradição, sempre renovada e democratizada. A disciplina, segundo Tiago, é a reflexão sobre a maneira racional de viver. É a razão que motiva e dá sentido, sabor e cor à vida. O projeto do café filosófico não visa nenhum vínculo institucional de extensão, mas visa abordar a filosofia de forma viva e dinâmica, uma vez que o ser humano é naturalmente filosófico e fazer sempre as perguntas básicas sobre o sentido da vida, por exemplo. O Café não pode se pretender uma terapia, mas ser suporte emancipador. A filosofia no café parece sem dor, mas muito nos questiona, pois sua preocupação é responder às demandas do solo rugoso da vida. A filosofia pode ser mais que o discurso acadêmico das salas de aula. Contudo, não é preciso defender uma esquemática oposição entre vida e universidade para se investir no café. É importante reconhecer que a filosofia tem seu espaço tanto no café como na universidade. 2.3 Como são os Cafés Mas, como saber se um tema é ou não filosófico? Acompanhadas por um cafezinho do costume popular e informal do brasileiro, as discussões filosóficas essenciais acerca da existência humana, com êxito, são aguçadas por alguns professores graduados em filosofia. Os mesmos orientam, interpelam e apimentam a temática em voga. A fim de motivar as discussões, os professores utilizam de recursos diversos como pintura, performance, música e poesia. Esta não tenta transformar um discurso lógico em mágica, mas procura conduzir a linguagem do sentido às suas fontes. Logo, num Café em que se discute a filosofia contemporânea, há a possibilidade do pensamento enquanto movimento na literatura poética. 67 | P a g e PAULA, Elcione Leite de Revista Eletrônica Print by http://www.ufsj.edu.br/revistalable .et....a, São João del-Rei/MG, n.13, 2011 O Café é exatamente para frisar que há diferença entre fazer filosofia e não fazer. O professor que intermedeia prova isso. A leitura extra-acadêmica, no espaço público dos cafés, serve para expressar a diferença. 2.4 Objetivo de cada Modalidade O Café Filosófico “Potiguar” tem características próprias de filosofar — a começar pela constatação de que ocorre numa região e num país com outro contexto histórico, geográfico, cultural, político e climático. Tem em comum com o evento francês o fato de reunir, semanalmente, um grupo de pessoas interessadas em discutir temas de várias áreas da cultura, ciência e arte, com base em uma perspectiva filosófica. Uma das diferenças fundamentais é que, no Café de Paris, o tema do amor, por exemplo, é sugerido na hora da reunião. Se for aceito pelo animador e demais participantes, inicia-se um debate livre no qual os interessados expressam sua opinião concordando ou não com quem sugeriu o assunto. Já, no Café de “Natal”, o tema é divulgado com antecedência e os interessados se dirigem ao local para ouvir o palestrante abordar a questão em pauta abrindo-se, em seguida, o debate com o público. A necessidade de definir o assunto previamente se deve, entre outros critérios, ao fato de que posteriormente, as palestras são reunidas em livro. Logo, esta modalidade se caracteriza por palestras onde após a exposição do tema, é que se oferece oportunidade para dúvidas e contribuições. A “Nova Acrópole” promove aulas à maneira clássica, busca resgatar os valores humanos por meio de obras que tratam da ética, da sociopolítica e da filosofia da história. Seu estilo se assemelha com a logosofia. No bar “Mezcla”, por meio da arte, discutir democraticamente um tema por ano. Há uma partilha de experiências com o tema. Na modalidade de café do Mezcla não há aula nem palestra, e sim um bate-papo com reflexão filosófica 68 | P a g e PAULA, Elcione Leite de Revista Eletrônica Print by http://www.ufsj.edu.br/revistalable .et....a, São João del-Rei/MG, n.13, 2011 acompanhada de apresentações de dança, música, vídeo, teatro, poesia ou artes plásticas, com intervenções dos professores no intuito de evitar a dispersão do assunto discutido. Enfim, é apresentado e discutido um texto, que é a porta da percepção do mundo, intermediado pelos professores com interesse de que todos os participantes, dentre eles, donas-de-casa, professores ou estudantes participem. No “Boulevard 40”, em meio ao bate-papo ou a um filme, discute-se semanalmente um tema escolhido pelo grupo participante. Na “Casa de Cultura”, por meio de aulas e de filmes, discute-se sobre temas pertinentes à história da filosofia; ou melhor, são aulas de introdução à filosofia, com caráter mais místico-oriental. 3 ATUALIZAÇÃO DO PENSAR FILOSÓFICO Torna-se importante fazermos uma explanação do processo do pensar filosófico, a fim de evitar anacronismo, ao afirmar que na época de nossos pais, por exemplo, a vida era melhor, uma vez que a sociedade brasileira era mais rural, mais familiarizada, ecológica e a violência ainda não era tão sofisticada como agora. No entanto, é interessante lembrarmos que atualmente somos produtores duma sociedade mais urbana, com luz elétrica, nanotecnológica, com possibilidades cada vez maiores de intervirmos no perigo de morte com uma cirurgia ou retardarmos nossa morte biológica. Sendo assim, podemos seguir o exemplo de Aristóteles, ao dialogar com os sofistas de sua época, caso utilizemos o melhor dos recursos tecnológicos que nós mesmos produzimos. Logo, não seria de bom tom desconsiderarmos os instrumentos tecnológicos que também fazem parte de nosso veio humano. Daí a importância de dialogarmos ainda com os diferentes modos de expressão do pensamento. 69 | P a g e PAULA, Elcione Leite de Revista Eletrônica Print by http://www.ufsj.edu.br/revistalable .et....a, São João del-Rei/MG, n.13, 2011 3.1 Exemplo Clássico do Filosofar O exercício socrático é normalmente apresentado em dois momentos interpenetrantes que lhe são constitutivos. O primeiro é denominado ironia. Esta é um apontamento de contradições. Ou seja, o interlocutor de Sócrates, na tentativa de se fazer compreender, se auto-avalia e expõe de si mesmo também contradições que o fazem incompreensível. Na esperança de desfazer-se de tais, instaura outras mais. Neste emaranhado por ele próprio confessado, sente-se vítima da ignorância, que o faz considerar: “só sei que nada sei”. Neste momento, morre mais um “sábio” para gestação dolorosa, mas importante, de mais um amigo do saber. A maiêutica, que significa “parto”, tem por sustentação essa crise instaurada pela ironia: incide num momento “doloroso de desconstrução”, em conformidade com a gestação, culminadas no “parto de idéias”. Todo esforço do parto é bem expresso no “conhece-te a ti mesmo”. A crítica, no procedimento filosófico socrático não é ato que vem de fora, mas de dentro de quem dá à luz: contra os sofistas que vivem de informações agradáveis, de “senso comum”, Sócrates apela para que saia de nós apenas o que é nosso, depurado pela nossa consciência. Grávidos do mundo, cabe a cada um de nós a gestação de tudo o que foi colhido, fazendo-o como que nosso, transformando-o na identidade do múltiplo, num esforço sempre renovado. Dentre tudo o que tomamos por verdade, o que é a “Verdade” pela qual tomamos tudo isso? Aquele que exercita a crítica “forte” mantém uma abertura ao “outro”, reconhecendo-se limitado, não dono da verdade. Percebemos que esse procedimento socrático tem o diálogo como sua condição de possibilidade. É ao querer se fazer compreender a outrem que alguém se expõe igualmente para si mesmo, percebendo uma identidade que, embora constituída de dobras, busca perfazer-se agora 70 | P a g e PAULA, Elcione Leite de Revista Eletrônica Print by http://www.ufsj.edu.br/revistalable .et....a, São João del-Rei/MG, n.13, 2011 frequentemente, pretensamente sem qualquer salto. Pela inquietação das incompreensões que possa suscitar, necessariamente se refaz por conservação e por mudança, reparações na constante busca do melhor “conhecimento de si mesmo”. Um homem fechado em si tende a tomar-se como “universal”, promotor de ações intolerantes. O filosofar de tendência histórica é expressão inquestionável duma intenção de ruptura, pois enquanto as instituições sociais objetivam a regularidade que nos subtrai a insegurança de nossa existência, este filosofar, por sua vez, nos subtrai de tal regularidade, denunciando-a como conjectura humana de causas e efeitos apenas psicológicos e sociais. Avessa, conseqüentemente, a toda forma de “controle”, qualquer previsão se faz inadmissível à filosofia. Contra a cultura de “arquibancada de pão-e-circo”, o filosofar é uma atividade radicalmente livre. Esta atitude compreende o outro a partir das condições de suas lentes. 3.2 A Experiência e a Produção da Tolerância Desde seu início, a filosofia esteve preocupada com a problemática da ética (morada ou, aqui, tolerância). Sócrates, em especial, se preocupou em relação aos sofistas, os quais pareciam querer demoli-la, na medida em que relativizavam costumes, tornando-os destituídos de valor absoluto. O esforço de Sócrates e de toda a filosofia grega, sobretudo com Platão, foi o de encontrar bases racionais sólidas para a tecedura de tal abrigo. Este distingue o ser humano dos animais. Enquanto o ser humano convive com a angústia de buscar razões para seus questionamentos, os instintos delimitam os animais. Conforme Lara, eis a diferença entre a consciência humana e o instinto animal: 71 | P a g e PAULA, Elcione Leite de Revista Eletrônica Print by http://www.ufsj.edu.br/revistalable .et....a, São João del-Rei/MG, n.13, 2011 A pujança da vida humana não acontece apenas no trabalho e pelo trabalho. Acontece também, e com igual valor, como instinto celebrativo da alegria de viver; como expressão da capacidade de ir ao encontro das coisas numa perspectiva de jogo, explorando a possibilidade de explodir o já constituído e de entregar-se ao risco do novo, pelo prazer de assim fazer. Brincar com as coisas, com o próprio corpo (o que os animais também fazem), com a capacidade de fantasiar, pensar, sentir e agir levou a humanidade a descobrir um mundo de formas que estão muito além daquelas oferecidas pela natureza e muito além daquelas cobradas pela utilidade. A arte é essa capacidade de fazer o novo acontecer... (LARA, 1996, 95). Logo, só o ser humano é capaz de “curtir” o desafio da tolerância ao diferente, a qual perfaz a crítica “forte”, abrindose ao diálogo com as demais perspectivas do pensar.2 Assim, pode acontecer, no jogo da vida, o pensar filosófico. 4 FUNÇÃO SOCIAL DO FILÓSOFO Segundo Leopoldo e Silva, as relações entre filosofia e sociedade não se reduzem à explicação das condições histórico-sociais da produção teorizada da filosofia. Para ele, há o risco duma relação mecanicista, via negligência de mediações (várias forças histórico-sociais), entre a história e a subjetividade enquanto agente histórico. 2 Este capítulo foi tecido a partir do resumo produzido a partir de textos do Prof. Rodrigo R. A. da Silva, citado nas referências. 72 | P a g e PAULA, Elcione Leite de Revista Eletrônica Print by http://www.ufsj.edu.br/revistalable .et....a, São João del-Rei/MG, n.13, 2011 Todavia, Silva delimita a questão da função social do filósofo por meio de duas perspectivas. A primeira questiona a história sobre a função social do filósofo, e de que modo a reflexão é inserida na história vivida por aquele que escolheu o saber filosófico para a apreensão da realidade. A segunda perspectiva prescreve a função do filósofo frente à convivência e reflexão sobre o processo histórico. Ambas as perspectivas podem se complementar caso se obtenham elementos facilitadores da inserção, na história, da filosofia. A segunda perspectiva deixa abertura para o questionamento da própria inserção histórica da filosofia, uma vez que os objetivos que ela pretende elucidar se encontram na escala do absoluto, por causa da contemplação duma realidade transcendente e não na efemeridade das relações sociais e políticas do processo histórico. Uma dificuldade relativa à primeira perspectiva se dá no critério da seleção dos interlocutores. Dá escape para questionamento às respostas, baseado em outra escolha que delimita respostas diversas e contraditórias. Conforme Silva, dificilmente, imagina-se um filósofo mais comprometido com a vida política e a prática política da cidade e seus problemas do que Sócrates. Desde o início da filosofia nota-se a não-excludência da Verdade e da inserção social na esfera do Saber, a fim de não confundir o caráter contingente do proveito particular com as condições da condução da coisa pública, do Bem Geral. É a partir do signo da universalidade que o filósofo mantém-se no plano da indagação, sem deixar escapar seu vínculo com a concretude da contingência humana no solo rugoso da vida, em severa oposição aos Sofistas. É sob a perspectiva da universalidade que se entende a condição do filósofo em Platão. E o Mito da Caverna ensina que é necessário fugir do mundo das sombras e encontrar fora da caverna o real mundo dos objetos e o sol que os clarifica no seu autêntico ser. A dialética, enquanto método, 73 | P a g e PAULA, Elcione Leite de Revista Eletrônica Print by http://www.ufsj.edu.br/revistalable .et....a, São João del-Rei/MG, n.13, 2011 garante que esta busca se dá numa direção que caracteriza a idéia do Bem, fonte de realidade. Para Platão a morte pode ser a conversão da alma, constitui a passagem da obscuridade à clarividência, se o filósofo retornar à sua antiga morada. A volta daquele que atingiu a contemplação da luz é voluntária ou forçada? Há algo de condutor no espírito filosófico. Faz-se necessário que este retorno esteja de algum modo incluso na própria tarefa do filósofo enquanto contemplação da verdade. No plano real do humano, o filósofo é o mantenedor da justiça que deve reinar. Em Platão, existe apenas a preocupação de retirar o fundamento da vida política da esfera do contingente e colocá-lo sob aval da universalidade. Pela manutenção da justiça o filósofo é um homem entre outros homens, é aquele que conduz a si e ao outro, por meio de si próprio, à autonomia (pedagogia) espiritual que para Platão é a consciência da relatividade do mundo sensível. Na justiça, a sociedade será naturalmente harmoniosa e o poder, um acréscimo quase despercebido à organização social. A teoria política de Platão é um desdobramento do retorno à Caverna, da preocupação com os outros homens. A partir de Descartes, a inserção do filósofo na sociedade passou a ser mais indireta. A filosofia cartesiana é o fundamento da civilização moderna, do produto imediato e matematizado da ciência moderna. A inserção na história, na atitude filosófica de Pascal, para Silva, não se baseia pela consciência da necessidade de impor a norma da razão a todos os aspectos da vida humana para que ele se beneficie da universalidade da teoria, mas da vivência da incapacidade da razão em resolver as contradições inerentes à vida. A inserção na história ocorre pela aceitação da irracionalidade da história, que é, em especial, a aceitação da contradição que a razão historicamente constituída procura maquiar. O compromisso do filósofo é com a manutenção da errância, com a 74 | P a g e PAULA, Elcione Leite de Revista Eletrônica Print by http://www.ufsj.edu.br/revistalable .et....a, São João del-Rei/MG, n.13, 2011 peregrinação pelas contradições e com a divindade oculta. É percorrendo meio errante um caminho marcado por determinações religiosas, político-sociais que os homens se inserem na história e que a consciência filosófica tramita entre a grandeza e a miséria. A inserção histórica e a função social de alguma forma estão presas à nostalgia do infinito. Se o homem é corrupto, o valor da história também está irremediavelmente comprometido com esta corrupção. Em todo caso, sendo a história marca da finitude, ao menos não corremos o risco de tentar superar a finitude pela harmonia entre a história e a razão (SILVA, Franklin. 1996, 18-19). O filósofo que almeja resignificar a realidade para além dos sentidos que ela dá conta deve, por meio duma crítica procedente, desmistificar o conhecimento, a história e a cultura enquanto produções exclusivas duma razão ordenadora, dissolvendo as ideologias racionais, tais como a universalidade, a ordem e a própria verdade. O filósofo, que tem o ofício de dar sentido à reflexão do vivido, que incorpora o nível da subjetividade operante e que postula a inserção crítica na realidade, não pode desconsiderar a complexidade da relação homem (individual)/história (totalidade) e deve acrescentar ao pensamento e à ação a vivência refletida das dicotomias que conformam a existência histórica em todos os planos: acaso/necessidade; contingência / determinação. A compreensão desta espécie particular de dialética produz as possibilidades de compreender o devir histórico, produz a racionalidade imanente da história, que é fruto da afetação da liberdade do sujeito com o curso da história. 75 | P a g e PAULA, Elcione Leite de Revista Eletrônica Print by http://www.ufsj.edu.br/revistalable .et....a, São João del-Rei/MG, n.13, 2011 Para Silva, Platão iludiu-se ao entender que a mudança da história pelo homem poderia ser uma imobilização da verdade histórica. Do mesmo modo, Descartes, ao acreditar que o método salva o homem do devir, ao fixar uma essência atemporal na figura da razão soberana. Nietzsche teria visto a forma de viver a autenticidade da existência a partir da negação do valor que a própria razão confere à existência, valor manifesto na inserção racional da existência na história. Nietzsche afirma que o filósofo é o legislador-dançarino. No entanto, para Silva, Merleau-Ponty dá uma lição talvez mais próxima de nós: o sentido da história é plural, contingente e dolorosamente apreendido na dicotomia do fazer e do sofrer a história. A segunda perspectiva apontada por Silva quer nos mostrar que o filósofo tem, deve exercer uma função social. É pelo mesmo motivo de Silva que vemos a contribuição dos cafés filosóficos enquanto possibilidade de ser ensaio e exercício livre de produzir outros conhecimentos que não sejam deterministicamente àqueles produzidos pelo trabalho assalariado regido pelo sistema capitalista. Uma doceira, por exemplo, tem muito mais liberdade em seu trabalho manual ao modelar seus quitutes conforme sua criatividade. Isto é o que chamamos de ócio criativo: quanto maior o número de compossíveis uma atividade abarca, mais livre e criativa ela é. Assim, percebe-se que a discussão produzida nos cafés filosóficos é parte do compromisso com o processo histórico-social: Por isto, o engajamento nunca pode se dar a partir da segurança daquele que detém as respostas, mas sempre a partir da perplexidade daquele que sabe que a razão e o sentido não excluem a imprevisibilidade, os desvios e as angústias, uma vez que o homem está na história como quem se procura, não 76 | P a g e PAULA, Elcione Leite de Revista Eletrônica Print by http://www.ufsj.edu.br/revistalable .et....a, São João del-Rei/MG, n.13, 2011 como quem já se encontrou (SILVA, Franklin. 1996, 22). O “negócio”, na Grécia, era um tipo de trabalho indispensável à sobrevivência material. O ócio era para o senhor que possuía escravos. Estes, com seus trabalhos, acumulavam riqueza para seus proprietários. Enquanto a classe operária se envolvia com seus trabalhos físicos, enquanto a mulher tinha a obrigação de manter a espécie e criar os filhos, os cidadãos tinham tempo para o ócio: trabalho político, intelectual, artístico. Com o mesmo tempo de duração, podemos optar por exercer o “negócio”, talvez com o objetivo frenético de lucrar e obter produção material em grande escala ou optar pela reflexão nos cafés filosóficos. Estes são uma tentativa de criar um “ócio” para filosofar, sair da Caverna, contemplar a luz e cumprir o papel social do filósofo, que é retornar à Caverna, mesmo se arriscando sem querer, sem ser compreendido, mas exercendo a missão intrínseca do filósofo: guiar-se a si mesmo e aos outros homens pela incontigência da Justiça na peregrinação do devir humano rumo à luz do infinito. CONCLUSÃO Encontramo-nos numa cultura com informações globalizadas e ao mesmo tempo com uma superespecialização desenfreada. Tantas informações prontas são ansiolíticas, em vez de pensamento crítico-desenformado. Aprender a conhecer é inserir-se numa pedagogia dialética que percebe a importância da história em seu pretérito, presente e futuro. O pensamento nunca deve perder-se no momentâneo. Precisamos lembrar que nosso micro-conhecimento está contido no macro-conhecimento do cosmos. É este pensar transversal-lateral que as escolas buscam para o sucesso da 77 | P a g e PAULA, Elcione Leite de Revista Eletrônica Print by http://www.ufsj.edu.br/revistalable .et....a, São João del-Rei/MG, n.13, 2011 transdisciplinaridade, a qual foge da caduca regra da hierarquia que torna o conhecimento estéril. Vemos que pensar filosoficamente implica conexão entre os elementos diversos e significa autoquestionar-se frente à realidade complexa a fim de não se ocultar no escuro da nossa especialização fragmentada. Trata-se de ensinar e aprender entre nós a arte para a problematização. Podemos também nos educar para frequentarmos os pensadores nas bibliotecas acessíveis na escola, na cidade ou nos sítios da Internet. E nada de nos contentarmos com a mediocridade de ler apenas os resumos das grandes obras! Isto significa que aprenderemos a fazer uma leitura profunda acerca dos discursos que nos são apresentados. Há uma sabedoria das coisas. Há uma riqueza simbólica oculta no coração delas. Sabemos que contemplar é observar, saber para realizarmos o que idealizamos. Já o pensar filosófico é o analisar e o sintetizar. É separar e unir. A inteligência analítica procura perceber em que uma realidade não é outra. A inteligência sintética tenta recuperar dessas análises os pontos de comunhão, de aproximação. Na análise, um não é o outro. Na síntese, um é o outro, embora sob perspectivas diferentes. Acostumar-se ao diálogo do sim e do não produz a arte de refletir criticamente. Esta é cultivada pela nossa capacidade de saber se relacionar com o diferente. Afirmações como estas acirram nosso pensamento: “O todo é mais que a soma das partes”; “o todo é inferior à soma das partes”. Ou seja, esta contradição combate Max Weber e significa que quando cada pessoa assume sua função equilibradamente, a sociedade torna-se sadia. Nesta sociedade do know-how, i.é, de conhecimento técnico, ao sabermos nos perguntar e nos relacionar, estaremos no processo de aprendizes do pensamento e da vida. Estes se inserem no processo que consiste fundamentalmente na preocupação de não acumular 78 | P a g e PAULA, Elcione Leite de Revista Eletrônica Print by http://www.ufsj.edu.br/revistalable .et....a, São João del-Rei/MG, n.13, 2011 conhecimentos “vampirizados”, mas entendê-los em contextos mais amplos. Esta é a tática de desacelerar, auscultar para nos conduzir à produção de conhecimento no pensar filosófico, o qual difere do senso comum da mera reprodução de conhecimento. Se for pelo prazer que o conhecimento acontece, o professor de filosofia poderá preparar seu plano de curso juntamente com os professores de outras disciplinas da escola, a fim de que a filosofia não seja um apêndice ou mais uma gaveta na mente do aluno. O professor pode elaborar seu plano de curso em conjunto, conforme os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN’s). Contudo, sua aplicabilidade poderá ser com calma. Em nosso estágio supervisionado em alguns colégios, por exemplo, já notamos isto. Além disso, a contação de estórias, pequenas excursões e aulas extraclasses podem auxiliar muito o pensar filosófico, por meio de gincanas, jogos, brincadeiras, partilha e troca de afetos. O aluno, no ócio criativo, poderá exercer o pensar filosófico, na dança da vida. REFERÊNCIAS BORGES, Jorge Luis. Esse ofício do verso. Org. Calin-Andrei Mihailescu. Trad. José Marcos Macedo. São Paulo: Companhia das Letras, 2000. DE MONTAIGNE, Michel. Pedantismo. In: ____. Ensaios. São Paulo: Abril Cultural, 1972 (Os Pensadores). FILHO, Ciro Marcondes. Perca tempo: é no lento que a vida acontece. São Paulo: Paulus, 2005. LARA, Tiago Adão. A produção da riqueza material e o trabalho. In: ____ A escola que não tive — o professor que não fui: temas de filosofia da educação. São Paulo: Cortez, 1996, p. 75-84. ____ A produção dos símbolos. In: ____. A escola que não tive — o 79 | P a g e PAULA, Elcione Leite de Revista Eletrônica Print by http://www.ufsj.edu.br/revistalable .et....a, São João del-Rei/MG, n.13, 2011 professor que não fui: temas de filosofia da educação. São Paulo: Cortez, 1996, p. 92-96. ____ A experiência e a produção éticas. In: ____. A escola que não tive — o professor que não fui: temas de filosofia da educação. São Paulo: Cortez, 1996, p. 102-103. LIBANIO, João Batista. Aprender a conhecer e a pensar. In: ____. A arte de formar-se. CES, 2. ed. São Paulo: Loyola, 2001, p. 17-41. PLATÃO. Defesa de Sócrates. Trad. Jaime Bruna. 2. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1980 (Os pensadores). SILVA, Franklin Leopoldo e. Função social do filósofo. In: MUCHAIL, Salma Tannus (Org.). A Filosofia e seu ensino. 2. ed. São Paulo: EDUC, 1996, p. 9-22. SILVA, Rodrigo Rodrigues Alvim da. Aula. Juiz de Fora: s/d. KOAN, Walter O. (Org.). Filosofia: caminhos para seu ensino. Rio de Janeiro: DP & A, 2004. Panorama, Juiz de Fora: 19 jun. 2005. Cad. 2, p. 1. SOUZA, Ilza Matias de. Discutindo filosofia. In: Escala Educacional, ano I, n. 2, p. 47. Tribuna de Minas, Juiz de Fora: 20 abr. 2005. Cad. Etc., p. 11. 18. ____. 20 abr. 2005. Cad. 2, p. 1. ____. 12 jul. 2005. Cad. 2, p. 1. ____. 20 out. 2005. Cad. 2, p. 3.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Ecumenismo a partir da leitura da Igreja Católica Ocidental

“Sobre o ecumenismo”: Elcione Leite de Paula Paulo VI, em sua Carta Encíclica sobre o ecumenismo, logo no proêmio exorta para a unidade na diversidade, com a pregação do Evangelho a toda a criatura. No primeiro capítulo, orienta os católico-cristãos para o diálogo humilde com os irmãos separados, mas unidos em Cristo, mesmo com suas especificidades eclesiais: “Guardando a unidade nas coisas necessárias, todos na Igreja, segundo o múnus dado a cada um, conservem a devida liberdade tanto nas várias formas de vida espiritual e de disciplina, como na diversidade de ritos litúrgicos e até mesmo na elaboração teológica da verdade revelada. Mas em tudo cultivem a caridade” (§4g). No segundo capítulo, sobre a prática do ecumenismo, o pontífice fundamenta seu discurso na palavra de Deus, “Que todos sejam um”, conforme João 17,21: as preces ecumênicas “são uma genuína manifestação dos vínculos pelos quais ainda estão unidos os católicos com os irmãos separados: ‘Onde dois ou três estão congregados em meu nome, ali estou eu no meio deles’ (Mt. 18,20)” (§8c). No terceiro, último capitulo, torna significativa as influências da profunda liturgia oriental no rito latino e a importância da unidade e diálogo destas igrejas irmãs: “Tendo ponderado tudo isso, este sagrado Concílio renova o que foi declarado pelos sagrados Concílios anteriores e também pelos Pontífices Romanos: para restaurar ou conservar a comunhão e a unidade, é preciso ‘não impor nenhum outro encargo além do necessário’ (Act. 15, 28)” (§18). Quanto às igrejas separadas no Ocidente pela Reforma no fim da Idade Média, o autor reconhece as dificuldades do diálogo no sentido de valorizar tanto a identidade da Igreja Católica quanto às outras realidades eclesiais, mas destaca que tal sensibilidade, delicadeza, conversão do coração faz parte da missão da Igreja: “Este sagrado Concílio deseja insistentemente que as iniciativas dos filhos da Igreja católica juntamente com as dos irmãos separados se desenvolvam; que não se ponham obstáculos aos caminhos da Providência; e que não se prejudiquem os futuros impulsos do Espírito Santo. Além disso, declara estar consciente de que o santo propósito de reconciliar todos os cristãos na unidade de uma só e única Igreja de Cristo excede as forças e a capacidade humana” (§24b). REFERÊNCIA DOCUMENTOS PONTIFÍCIOS. Sobre o ecumenismo. Decreto Unitatis Redintegratio. Paulo VI, PP. 21/11/1964. http://www.vatican.va/phome_po.htm

Liturgia I: sobre o memorial da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus: fração do Pão e os discípulos-viandantes do Caminho

Elcione Leite de Paula: 1. Até hoje não existe, nem no Magistério da Igreja, uma definição clara sobre a diferença entre Liturgia e exercícios de piedade do povo cristão. A semelhança está no espaço celebrativo e no tempo. No entanto, a Liturgia oficial da Igreja celebra o ano litúrgico. Quanto aos ministérios, há os Mistérios ordenados e os de carisma (sacerdócio comum) instituídos aos leigos pelos Ordinários (Bispos). Conforme Pedro Assis Ribeiro de Oliveira, as práticas celebrativas do chamado “catolicismo popular” é catolicismo, uma vez que dele também fazem parte elementos como o batismo, a primeira comunhão, a missa, e, mesmo fundamentado em uma piedade subjetiva, não fere os dogmas. Porém, carece dos núcleos sacramental e evangélico, caracterizando-se em seu caráter privado, em que a presença do sacerdote é inexistente ou de mero caráter auxiliar. Para Oliveira, o catolicismo oficial da Igreja em quatro núcleos. O primeiro núcleo é o sacramental, incluída a participação do sacerdote como condição sine qua non para operar as relações com o sagrado. O segundo é o núcleo evangélico. É a expressão da Bíblia como ponto de reflexão e livro norteador da doutrina. Sobre o contato do povo com a Bíblia, afirma João Fagundes Hauck que este era feito no Brasil colonial e no Império tão somente por meio de representações, mormente na época da Semana Santa e Natal. Estabelecia-se dessa forma entre a população e o Evangelho um relacionamento de “cunho folclórico, festivo, nos reisados e congadas, e na apresentação do presépio” (HAUCK, et. AL. 1992: 106). Logo, tanto o núcleo sacramental quanto o evangélico estão sob o esteio da piedade objetivo-formal. O terceiro núcleo é o devocional, o qual caracteriza-se pelo relacionamento sem interferências do homem com o sagrado, visto sob o viés da piedade antropocêntrica ou subjetiva. Tal contato se materializa em caráter individual, como, por exemplo, em forma de orações (oficiais ou não), novenas, penitências que evitam um “castigo” maior do santo. Ou ocorrem coletivamente, como nas romarias,procissões, festas de santos, dentre outros. O quarto e último núcleo do Catolicismo ou Liturgia oficial da Igreja, de acordo com Oliveira, é o núcleo protetor, que se define pelas relações diretas e sem interferências do homem com o sagrado, desta vez sob a ótica da proteção, entendida aqui como a obtenção de vantagens concretas: os santos vão interceder pelo devoto na obtenção de um emprego, na volta de um amor perdido, enfim, na busca do reequilíbrio material ou emocional afetado pelas dificuldades da vida. Assim sendo, Oliveira (1972) conclui que “catolicismo popular é aquele em que os núcleos devocional e protetor primam sobre os núcleos sacramental e evangélico” (p. 354). Na paraliturgia estão inclusos a encomendação dos fiéis defuntos, a “Missa de Sétimo Dia”, a oração comunitária como o Rosário, o Angelus, a Via-sacra (p. 549). “Para nos converter em uma Igreja cheia de ímpeto e audácia evangelizadora, temos que ser de novo evangelizados e fiéis discípulos. Conscientes de nossa responsabilidade pelos batizados que deixaram essa graça de participação no mistério pascal e de incorporação no Corpo de Cristo sob uma capa de indiferença e esquecimento, é necessário cuidar do tesouro da religiosidade popular de nossos povos, para que nela resplandeça cada vez mais ‘a pérola preciosa’ que é Jesus Cristo, e seja sempre novamente evangelizada na fé da Igreja e por sua vida sacramental. É preciso fortalecer a fé ‘para encarar sérios desafios, pois estão em jogo o desenvolvimento harmônico da sociedade e a identidade católica de seus povos’” (DAp 549). 2 Traduzindo literalmente leitourghía “significa obra pública, ‘serviço da parte de/e em favor do povo’. Na tradição cristã ela compreende que o povo de Deus toma parte na ‘obra de Deus’. Pela liturgia, Cristo, nosso redentor e sumo sacerdote, continua na sua Igreja, com ela e por ela, a obra de nossa redenção” (CEC 1069). A partir do Concílio Ecumênico Vaticano II, houve uma profunda renovação na Liturgia da Igreja. “Pois a Liturgia, pela qual, principalmente no divino Sacrifício da Eucaristia, ‘se exerce a obra de nossa Redenção’, contribui de modo mais excelente para que os fiéis exprimam em suas vidas e aos outros manifestem o mistério de Cristo e a genuína natureza da verdadeira Igreja” (SC 2). No helenismo, a liturgia passou a ser o serviço determinado pela lei por uma parte do povo. No decorrer do tempo, essa iniciativa perdeu seu caráter livre, tornou-se imposta, “serviço” prestado ao Estado, à divindade ou a um particular. Na Septuaginta (AT), a palavra liturgia aparece cento e cinquenta vezes, designa em sua maioria, o culto exterior que os sacerdotes e levitas ofereciam no templo, sobretudo os sacrifícios (cf. Ex 27,19; 28,35; 1Cr 23-28). No NT, leitourgía e seus derivados ocorrem quinze vezes, tendo três acepções diferentes: a) Significado profano (Fl 2,30; Rm 13,6). b) Significado cúltico-ritual (At 13,2; Lc 1,23; Hb 9,21). c) Significado vivencial (toda a vida do cristão vem a ser um culto a Deus, de modo que nada há aí de profano ou arreligioso: Fl 2,17; Rm 1,9; 12,1; 15,16; Fl 3,3; 1Pd 2,5). “Reuni-vos no dia do Senhor, para romperdes o pão e dar-des graças” (Didaqué 14,1): Instrução escrita entre 70-90 EC. At 2,42. Nos escritos pós-apostólicos: Para o conhecimento litúrgico dos primeiros séculos do Cristianismo, na Tradição Apostólica destaca-se a figura de Hipólito de Roma. Contemporâneo de Orígenes (e, provavelmente, originário, como Irineu, seu mestre, do Oriente), se faz apologeta dos valores tradicionais da fé católica transmitida pelos apóstolos. A instituição catecumenal (batismo, martyria: testemunho) é uma das mais acabadas ações da Igreja nos séculos II e III, é o desenvolvimento do que estava em germe no Novo Testamento (ex. At). São Clemente de Roma escreve aos Coríntios acerca do culto cristão, sobre a Eucaristia, fração do pão, baseada em At 12,3. Após uns quatro séculos esquecida, a Liturgia foi por Pio IX, no início do séc XX. A encíclica Mediator Dei dialoga com o Movimento Litúrgico. Foi inclusa no Código de Direito Canônico (CIC) de 1917. A Liturgia ganhou destaque no Sacrossanto Concílio: accio, celebratio, oficium; do Concílio Ecumênico do Vaticano II. 3 Memorial é a atualização da dimensão histórico-profético da salvação. “Hoje escravos, amanhã livres”. É o mesmo pão, como se anulasse a dimensão espaço-temporal. Deus age aqui e agora (Ex 12,1-14.28). O Sinal Profético é a antecipação. Iteração: (Ex 12,28; “tomou, deu graças, partiu, deu dizendo a novidade “isto é o meu corpo...). Ex. A última Ceia no Egito (Ex 3,7-8), as normas dadas por Deus, e a última Ceia de Jesus. O Evento Fundante é único e irrepetível: o Êxodo, a Libertação (Ex 3,7-8; 12,1-14.28), a Morte de Jesus na Cruz, a Redenção (Hb 9,26-28; 10,10). A Ação Ritual é a ação memorial, é o dado da repetição, atualização; dá acesso ao futuro de viver o mesmo evento fundante, “mesmo efeito salvífico de nossos antepassados”. Ex. Ervas amargas, o Cordeiro (Ex 12,14), a própria Celebração Eucarística, a Fração do Pão (Pão e Vinho; “será derramado, será dado”: “Anunciamos Senhor a Vossa morte e proclamamos...”. 4 A grande assembleia de Siquém, relatada em Js 24, enfatiza o vínculo entre a palavra divina que narra a história passada como história da salvação e a resposta do povo a essa palavra, na obediência à lei de Deus. Porém, inúmeras vezes o povo estabeleceu um divórcio prático entre história-culto-lei, isolando o rito tanto da palavra interpeladora de Deus como da resposta consequente numa vida de fidelidade à vontade de Deus; esse comportamento ritualista implicava um desvio da autêntica imagem de Deus como presença libertadora na história. Não tardou a denúncia profética: “Eu odeio, eu desprezo as vossas festas e não gosto das vossas oferendas e não olho para o sacrifício de vossos animais cevados...” (Am 5,21-24; Is 1,10-16; 29,13; 58,1-8; Jr 6,20; 7,1-15; Os 6,6; Mq 6,5-8; Eclo 34,18-26...). Por fim, o culto de Israel, dos acontecimentos libertadores do passado, contém uma dinâmica de esperança, uma tensão escatológica voltada para o futuro. 5 “Deste jeito Deus é! Permanente ação (serviço) em favor da vida do seu povo. A palavra “liturgia”, no seu sentido de serviço público, me faz lembrar que Deus é deste jeito. Então, por que não dizer que liturgia é o próprio jeito de Deus como ação em favor da humanidade? E daí, por que não dizer que o jeito de ser Deus é liturgia? Por que não dizer que Deus é a perfeição da liturgia, a própria fonte de toda liturgia. E celebrar a liturgia seria: Celebrar a perfeita liturgia que vemos em Deus” (ARIOVALDO). 6 “O verbo ‘celebrar’ tem um significado festivo, ritual e comunitário. Celebrar é glorificar, exaltar, festejar uma pessoa ou um acontecimento. Tem como objeto o mistério da salvação, o mistério pascal do Senhor. Toda celebração é festa, é um operar simbólico num clima de festa que exorta à participação ativa dos participantes. É celebração da vida no tempo em comunidade. Caracteriza-se por forte vivência de sentimentos, ruptura do cotidiano, sentido simbólico. A liturgia é memorial dos acontecimentos salvadores, é celebração em comunidade em união com toda a Igreja. É uma Epifania, é a celebração do ‘hoje’ de Deus no ‘Hoje’ dos homens. Os protagonistas da celebração são Deus em seu mistério trinitário e os homens congregados em assembleia, constituídos em povo sacerdotal” (POUILLY: 81-82).
Entre Iacyr Anderson e João Cabral de Melo Neto Paulo Andrade - Novembro 2012 Houve um sentido? Não foi tudo em vão? Iacyr Anderson Freitas Em Viavária (2010), livro mais recente do poeta de Juiz de Fora Iacyr Anderson Freitas, o leitor reconhece a filiação cabralina, no uso das quadras, no estilo descritivo e prosaico, na objetividade e rigor do corte, nas formas fixas e no ritmo, na intensa capacidade de reflexão e, sobretudo, na leitura crítica da realidade, questão que norteará a abordagem a seguir. O poema “Viavária”, que abre o livro homônimo, funciona como preâmbulo aos vários dramas históricos e individuais, encenados em nove séries, sobre os quais o poeta atravessa tempos e espaços para mostrar como o sistema de crenças, discursos e utopias, como a confiança no progresso, por exemplo, não passa de uma “ruína de erros”. Nesse jogo de olhar oblíquo para os eventos históricos, sua crítica insurge-se contra projetos desenvolvimentistas da modernidade burguesa. Portador de uma voz comprometida, o eu lírico utiliza-se da linguagem da poesia para “unir, a frio, o que o acaso dissipou”. É nesse sentido que o livro se oferece como oblação, reiterando o forte valor de redenção da poesia. Mas seu humanismo solidário exclui qualquer efusão lírica sentimental, dissolvida pelo uso da ironia, e, às vezes, do humor, como arsenal crítico. Consciente de seu lugar, como sujeito histórico, essa voz ética posiciona-se, a um tempo, no passado e no presente, analisando eventos históricos do país, filtrados pela sua subjetividade e transfigurados, como forma de resistência, em linguagem poética crítica. É possível notar na poesia de Iacyr Anderson uma voz que conserva e pratica os valores do alto modernismo. Comentando a variedade temática de Viavária, Alexei Bueno (2010, p. 12) observa, no prefácio, que “a única coisa fixa, o centro e o cerne, é exatamente a voz” do eu lírico. De fato, a consciência crítica está constantemente armada para pôr em xeque as contradições dos discursos civilizatórios da modernidade, denunciando a presença sistemática de ciladas que, sob diferentes aspectos e desdobramentos, são sustentadas pelo discurso da razão e do saber, que o homem cria para si: assim tão jovem me parece agora essa ruína de erros: céus que se movem para a morte, que entre livros se escora. (p. 17) Chamo atenção para o traço polissêmico do título. Viavária pode significar desde a variedade temática, unida por profunda coerência interna, até a multiplicidade dos procedimentos técnicos: variedade de versificação, de metro, de rima, de ritmo, extraídos do vasto repertório da tradição, da qual Iacyr Anderson Freitas é profundo conhecedor. Em Quaradouro (2007), obra que marca os 25 anos de publicação do livro de estreia de Freitas, curiosamente, sua poesia se inscreve numa tradição órfica, presente, no modernismo brasileiro, na voz de Cecília Meireles e Jorge de Lima. Tal fato chama a atenção de Affonso Romano Sant’Anna, que aponta o caráter de “intemporalidade” na obra do poeta mineiro: Agora não se trata apenas do “de onde” (espaço), mas “de quando” (tempo) está reverberando essa poesia. Assim, passado-presente-futuro se fundem numa atmosfera onírica. O “onde” e o “quando” também se fundem [...]. Sendo genuinamente órfica, há na poesia de Iacyr algo de hierático, de nobre”. (SANT`ANNA, 2007, p. 9) Em Viavária, ao contrário, ganha espaço um eu lírico insurgente que arremete contra as promessas de emancipação humana da modernidade. Tal postura manifesta-se sob diferentes aspectos e desdobramentos nas diversas partes do livro, revelando contradições históricas como fracasso ou “ruínas de erros”. Se o diálogo com a voz de João Cabral de Melo Neto é presença constante no livro, no poema, “João Cabral: o método em visita” a gramática de contenção, precisão e concretude do mestre pernambucano se revela com todo vigor. Num gesto claro de aliança e homenagem, ressaltam os recursos técnicos do mestre revisitado: Ser ao revés da cana: algo que não se dobra. Se o verso nos engana, mudá-lo quando em obra. Trazê-lo ao rés da fala, sempre a menos garbosa. Se o verso tudo embala, fazer, em verso, prosa. Para a cal de seu canto, melhor outra demão: para não cantar tanto quando em exposição. Que seja cal somente. Pura, ácida, branca. E, quando se apresente, seja o que não se estanca em tais frases de efeito, que mal servem de aceiro: separam em mil leitos o que é de corpo inteiro. (FREITAS, 2010, p. 69) Concomitante ao processo de construção do verso, o poeta vai desnudando a sua encenação, deixando expostos artifícios e procedimentos de composição, a maquinaria e o material utilizado para se expressar. Utilizando o método cabralino de comparar pela oposição (“ser ao revés da cana/algo que não se dobra”), o que se pretende é o total “controle do discurso”, como observa Antonio Carlos Secchin (1985, p. 133), a respeito da escrita cabralina. Ao submeter o verso à dobra, o poeta impõe seu domínio técnico sobre o impulso do canto, impedindo seu transbordamento. Lição ensinada por João Cabral, principalmente em “Ferrageiro de Carmona”, publicado em Crime na calle Relator (1985-1987), no qual concebe a arte como enfretamento físico com o objeto: Só trabalho em ferro forjado que é quando se trabalha ferro; então, corpo a corpo com ele. domo-o, dobro-o, até onde quero. (MELO NETO, 1994, p. 595) Ferro forjado exige a “queda de braço /e o cara a cara de uma forja” (id., ibid.). O procedimento é semelhante às esculturas de chapa de ferro de Amílcar de Castro, que são cortadas, dobradas e torcidas, fazendo com que a nova forma exiba o esforço técnico do artista. Viavária dialoga, seja de modo direto, seja de forma sutil, como muitos poemas de Quaderna, sobretudo com “A palo seco”, “poema-lema de todo o poetar cabralino, em sua dureza e em sua enxutez, em seu cortante laconismo” como sintetiza Haroldo de Campos (apud BARBOSA, 1975, p. 159). Se diz a palo seco O cante sem guitarra; O cante sem; o cante; O cante sem mais nada; Se diz a palo seco A esse cante despido: Ao cante que se canta Sob o silêncio a pino. (MELO NETO, 1994, p. 247) Neste canto “a palo seco” afinam-se as semelhanças entre os dois poetas: o uso de quadras, versos de seis sílabas, a presença de referentes concretos e do prosaico descritivo, que potencializa a secura e desempluma a linguagem, trazendo o verso ao “rés da fala”. Iacyr Anderson persegue o recurso de “subtração” ou de “depuração” (SECCHIN, 1982) ou de uma “linguagem de carência” (BARBOSA, 1975, p. 163), expressões criadas para definir a poética cabralina. Se em “A palo seco” a linguagem da carência se figurativiza na paisagem, nas “paredes caiadas”, Iacyr em “João Cabral: o método em visita” busca depurar ainda mais o seu canto, ao aconselhar “outra demão” da cal, e ainda adverte: “Que seja cal somente./Pura, ácida, branca”. Ética e estética O poeta mineiro atinge um alto grau de construção formal sem perder de vista o centro de suas preocupações: a história do homem. Quer dizer, a sua sofisticação técnica que não impede a comunicação, como bem defende João Cabral no ensaio “Da função moderna da poesia”. O poeta moderno, que vive no individualismo mais exacerbado, sacrifica ao bem da expressão a intenção de se comunicar. [...] Apesar de os poetas terem logrado inventar o verso e a linguagem que a vida moderna estava a exigir, a verdade é que não conseguiram manter ou descobrir os tipos, gêneros ou formas de poemas dentro dos quais organizassem os materiais de sua expressão, a fim de tornarem-na capaz de entrar em comunicação com os homens nas condições que a vida social lhes impõe modernamente. (MELO NETO, 1994, p. 768-9) Há em Viavária um sentimento de decepção com relação a certos projetos da modernidade, que, abordados por meio de diferentes temas e enfoques, deixa vazar um sentimento de promessa não cumprida. Este traço está disseminado em imagens que concentram o olhar do leitor em um mesmo campo semântico: naufrágio (“onde navegações, um só naufrágio/em que pouco do mundo se salvara” – p.18), cilada, morte, doença. É um livro sobre fracassos, sobre tempos de desencanto, com o passado e com o presente. Em “Das cidades em fuga”, o poeta nos lembra que a cidade — símbolo do esforço da civilização e das ações transformadoras da cultura — tem na Natureza sua origem e fundamento. Se o homem é construído pela cultura, ele, por sua vez é parte constituinte da natureza, como diz em “entrever o já visto”: Cidades não se fazem com nenhum improviso. O que parece vago teve traço preciso. [...] Só o fluxo, a rotina de entrever o já visto e dele retirar até o último cisto. As pessoas não fundam as cidades que alinham: fazem-nas com o barro que elas mesmas continham. (FREITAS, 2010, p. 21) As transformações advindas das experiências da modernidade — e as cidades estão relacionadas com tais experiências — não podem romper com o passado, porque ele é inerente às transformações do presente. Se, pensando com Maria Cecília Pinto (2004, p. 226), ao surgir, a cidade preserva sua memória, “marca humana do permanente ao lado da criação original, cujo processo de conservação é o renovar-se por ciclos, na imagem perfeita da roda”, o discurso desenvolvimentista, que busca apagar o passado, por meio da transformação da natureza, numa permanente busca pelo novo, é mais um erro anunciado, como se vê em “Armadilha”: Se nenhuma cidade chegou a ser criada sem antes um passado lhe servir de calçada, Se nenhuma chegou a gerar-se do nada, pois outras mil cidades lhe cederam morada, então toda a labuta talvez esteja errada e o que vemos no mapa seja apenas uma cilada: armadilha de quem, ao dar sua cartada, pensa fundar a terra que lhe serviu de estrada. (idem, p. 22) Insistindo na permanência da tradição no interior da modernidade, mesmo que ela se dê como rastros de memória, fragmentos de mosaico, a voz lírica nos lembra que povos ancestrais (“turcos, árabes, sírios, espanhóis, coreanos”) trazem na “bagagem/ um colar de cidades/ que ficaram à margem”. As cidades funcionam como palimpsestos (“Uma cidade feita/de cidades em fuga”), como diz o verso de “Os terrores mudados” (p. 25). Desencanto e fracasso Na base, o alvo a ser atingido é a crença no permanente discurso de ruptura que deslegitima a tradição, como se não houvesse outros modelos ou direções a seguir. Subvertendo esta lógica, Iacyr Anderson Freitas expõe as lacunas de tal discurso como se fossem apenas modos de “entrever o já visto”. A “ruína de erros” anunciada na primeira parte da obra radicaliza-se na série “Quilombo”, na qual a voz lírica denuncia a truculência dos bandeirantes, no século XVII, ampliando o raio de ação da voz crítica. Os treze poemas da série narram os planos do diabólico Domingos Jorge Velho, responsável pelo aniquilamento dos negros do Quilombo dos Palmares, em 1695: distribuiu “entre os escravos roupas de homens mortos pela varíola” e, em seguida, facilitando a fuga, deu a eles condições para que fossem se refugiar no Quilombo, contaminando, assim, toda a comunidade, conforme registro dos historiadores Luis C. A. Costa e Leonel I. A. Mello, de cujo livro, História do Brasil, Iacyr retira a epígrafe da série. Este diálogo entre ética e estética é outro ponto de convergência entre a obra de Iacyr Anderson Freitas e a de João Cabral de Melo Neto. Em vários poemas de Viavária a visão crítica da realidade utiliza o cenário da urbe contemporânea, para expor os dramas individuais, como a miséria, o alcoolismo, o sonho falido de ir para a Europa em busca de melhores condições de vida, temas que reverberam, no tempo presente, a mesma “ruína de erros”. Em muitos momentos a crítica vem acompanhada de uma acidez e um tom de desencanto irônico, como em “Ring my bell”: O salão quase vazio, não mais que duas bruacas. ambas com o mesmo cio cantado no bate-estaca. [...] Ontem tudo foi promessa. Agora perdeu-se o céu onde entrariam, sem pressa, na esteira de “Ring my Bell”. (p. 81) Há uma terrível disjunção entre o ritmo dançante de “Ring my Bell”, hit de Anita Ward, sucesso nas discotecas dos anos 1970/1980 e o cenário de solidão, flagrado pelo olhar cruel do eu lírico, que observa, com distanciamento, o cenário de fim de noite: “duas bruacas” num salão vazio. Seja no passado, seja no presente, (“na eternidade/em que a pista se projeta,/ali onde a dança invade/o passado e sua seta”) tudo é decadência, solidão e vazio. O tema também se impõe, aliado à prostituição, no poema “Ceci na Via Selci, em Roma”: Antes eu escolhia. Agora não. Só de vez em quando sou escolhida. Noites e noites cavando o meu pão nos bares. Pergunto: isso é que é vida? (p. 82) Os poemas se estruturam num jogo de oposições entre construção e corrosão no plano social e humano. A mensagem dos poemas geralmente se aproxima do caráter contraditório da modernidade, tal como foi formulado por Marshall Berman, em sua análise da sociedade e da cultura moderna. Para o sociólogo, ser moderno é viver num ambiente que promete “poder, alegria, crescimento, autotransformação e transformação das coisas em redor” (1987, p. 15) ao mesmo tempo em que “ameaça destruir tudo o que temos, tudo o que sabemos, tudo o que somos” (idem). A modernidade, para Berman, [...] une a espécie humana, porém, é uma unidade paradoxal, uma unidade de desunidade: ela nos despeja a todos num turbilhão de permanente desintegração e mudança, de luta e contradição, de ambiguidade e angústia. Ser moderno é fazer parte de um universo no qual, como disse Marx, ‘tudo o que é sólido desmancha no ar’” (p. 15). A ideia de corrosão, de desgaste, seja dos sistemas sociais, seja dos seres humanos, dialoga muito bem com o modo como João Cabral formaliza em “Paisagens com cupim”: Por fora o manchado reboco Vai-se afrouxando, mais poroso, Enquanto o desfaz-se. Intestina, O que era parede, em farinha. E se não se gasta com choque, Mas de dentro, tampouco explode. Tudo ali sofre a morte mansa Do que não quebra, se desmancha. (MELO NETO, 1994, p. 235) ---------- Paulo Andrade é Doutor em Estudos Literários (Unesp/Araraquara) e professor de Teoria da Literatura do Departamento de Literatura (Unesp/Assis). Músico e autor de Torquato Neto: uma poética de estilhaços (Annablume/Fapesp) e de vários ensaios em livros e revistas especializadas. ---------- Referências bibliográficas BARBOSA, J. A. A imitação da forma: uma leitura de João Cabral de Melo Neto. São Paulo: Duas Cidades, 1975. BERMAN, M. Modernidade ontem, hoje, amanhã. In: Id. Tudo que é sólido desmancha no ar; a aventura da modernidade. São Paulo: Companhia das Letras, 1986. p. 15-33. BUENO, A. Prefácio. In: FREITAS, Iacyr. A. Viavária. São Paulo: Nankin; Juiz de Fora: Funalfa, 2010. p. 11-14.. FREITAS, I. A. Viavária. São Paulo: Nankin; Juiz de Fora: Funalfa, 2010. PINTO, M. C. de M. Charles Baudelaire, poeta da cidade moderna. In: BARBOSA, S. (Org.). Tempo, espaço e utopia nas cidades. São Paulo: Cultura Acadêmica; Araraquara: Laboratório Editorial Unesp, 2004. p. 226. SECCHIN. A. C. João Cabral: a poesia do menos. São Paulo: Duas cidades; Brasília: INL, Fundação Nacional Pró-Memória, 1985. SIMON, I. Considerações sobre a poesia brasileira em fim de século. Novos Estudos Cebrap, n. 55. São Paulo, nov. 1999. Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.