sábado, 11 de agosto de 2012
Resumo de: Valores fundamentais da sexualidade humana
Valores fundamentais da sexualidade humana
Fonte: Revista “Vida Pastoral”, da Paulus
Maria Inês de Castro Millen é graduada em Medicina pela Universidade Federal de Juiz de Fora, onde também fez mestrado em Ciências da Religião; graduada em Teologia pelo Instituto Teológico Arquidiocesano Santo Antônio; e doutora em Teologia pela PUC-RJ. Autora de Os acordes de uma sinfonia – A moral do diálogo na teologia de Bernhard Häring.
Este artigo pretende abordar a sexualidade humana e seus valores fundamentais a partir do olhar da Teologia cristã. É possível pensá-la ao estabelecer reais frentes de diálogo com diferentes realidades:
Diálogo com a realidade enquanto tradição, enquanto história dos povos, contada através dos mitos, das lendas, dos ritos e das diversas expressões da cultura.
Diálogo com a realidade enquanto Tradição, enquanto Palavra de Deus, revelada nas Escrituras. Tradição como encontro afetivo e efetivo com o Filho de Deus. A Boa Notícia do Reino é a perene atualização no presente do que recebemos no passado e do que esperamos para o futuro.
Diálogo com a realidade enquanto Tradição pós-bíblica, de compreensão racional do evangelho. Diálogo com a realidade a partir da categoria “sinais dos tempos”. A Teologia que reflete sobre a ética cristã da sexualidade só terá plausibilidade se experimentar a abertura a um amplo e respeitoso diálogo transdisciplinar, que leve em conta as diferentes experiências do passado e as realidades da vida presente.
Uma primeira e fundamental afirmação: “Deus criou o ser humano à sua imagem, à imagem de Deus o criou. Homem e mulher ele os criou” (Gn 1,27). Essa revelação nos diz que a sexualidade é uma das dimensões essenciais do ser humano. Isso faz parte não de um imperativo, mas de uma bênção, de um dom. Uma segunda e não menos fundamental afirmação é a de que a Palavra, que já era no início e da qual somos imagem e semelhança, se fez carne e veio habitar entre nós (Jo 1,1.14). Fragmentar o humano ou reduzi-lo a uma de suas dimensões produziu e ainda produz muitas teorias e práticas equivocadas que comprometem a essencialidade e a dignidade próprias desse ser criado à imagem de Deus (Bento XVI, 2006, p. 5). A redução da sexualidade, do mistério da pessoa, ao medo ou ao desejo, aponta para alguns riscos. O primeiro risco é o de um falso espiritualismo, que prioriza o pretender viver como anjo quando se tem um corpo. Outro risco é o de um materialismo desconfigurado, um hedonismo que leva ao prazer, ao corpo pelo corpo, à objetivação do outro: o rigorismo ou o laxismo. “Eu sinto que sou”: é essa mesma força que é capaz de despertar nas pessoas o amor, o cuidado pelo outro, pela natureza, por si mesmas. Nunca o homem assumiu um aspecto tão problemático (complexo) como atualmente.
A Teologia Moral traz, portanto, algumas propostas para a reflexão atual sobre a sexualidade humana. A primeira é a de um retorno às fontes bíblicas. A referência moral dos cristãos é Jesus Cristo: a Lei do Amor. Não um amor qualquer, mas aquele já demonstrado aos seus discípulos, que são convocados a vivê-lo na solidariedade, na oferta e no serviço (Jo 15,12-17) (Millen, 2005).
A segunda proposta pretende clarear alguns conceitos, como, por exemplo, o de corpo/corporeidade, o de sexo/sexualidade e o de castidade. A palavra “corpo” aponta para a realidade objetiva da nossa condição corpórea; realidade visível, tocável, mutável e, talvez por isso, vítima de muitos equívocos e de muitas distorções por parte das culturas, das sociedades e das religiões. “Corporeidade” é mais abrangente, se refere ao “eu espiritual-corpóreo” que vive uma experiência única e irrepetível e indica a inteira subjetividade humana, sob o aspecto de sua condição existencail corporal, na configuração constitutiva de sua identidade pessoal (Millen; Bingemer, 2005, p. 180). Sexo se refere ao sexo de cada um na sua dimensão biológica/genital e ao ato sexual em si. Sexualidade é conceito abrangente. A palavra surge no século XIX e quer dizer, como já indicado anteriormente, uma energia que abrange a totalidade da vida da pessoa, revelando sua condição de ser sexuado em todas as relações que estabelece com qualquer outro, em todos os tempos de sua vida. O “rosto” (alteridade) do outro é sempre definidor da identidade e das atitudes daquele que é interpelado por ele. Outra palavra importante é “castidade”, que significa “nitidez, candura”, viver na transparência, no respeito. Dessa forma, podem existir encontros sexuais, genitais ou não, ou pessoas que vivem “celibatos sexuais” de maneira que não servem para quase nada, por não serem castos (Faus, 1999, p. 65-66).
A terceira quer trazer algumas ideias-chave, revisitadas pela Teologia que se renova com o Concílio Vaticano II. São elas: liberdade, fidelidade, criatividade e responsabilidade. À luz do seguimento de Jesus, todas as pessoas são chamadas á liberdade — “é para a liberdade que Cristo nos libertou” (Gl 5,1) —, mas só existe verdadeira liberdade na fidelidade, pois toda liberdade está referenciada a algo. Por essa razão, a Teologia Moral hoje está empenhada em formar pessoas adultas, maduras, discernentes e responsáveis, capazes de, na liberdade fiel e amorosa, serem portadoras da novidade que traz a Verdade que liberta e pacifica o ser humano e suas relações.
A quarta proposta é a tentativa de propor uma Teologia Moral Cristã da sexualidade para hoje. Aqui valem as palavras do Papa João XXIII, na abertura do Concílio Vaticano II: “[...] Nos nossos dias, porém, a Esposa de Cristo prefere usar mais o remédio da misericórdia que o da severidade: julga satisfazer melhor às necessidades de hoje mostrando a validez da sua doutrina que condenando erros (João XXIII, 1969). Para garantir essas duas dimensões, pode-se dizer que a ética atual da sexualidade aposta numa moral personalista relacional, não mais de atos, mas de atitudes. Nessa perspectiva, a sexualidade é redescoberta como um valor da vida humana e é concebida como a pessoa, masculina ou feminina, em relação com todos os outros, crescendo em direção ao amor. Este que é ofertado ao outro e que depende da dádiva que cada um faz de si, enquanto pessoa sexuada, tem uma concretude indispensável. Por isso, é necessário apontar para a plausibilidade de uma moral paraclética e terapêutica, que leve em conta a vida concreta das pessoas para, a partir desta, fazer o anúncio da boa notícia que consola e encoraja, que é convite sedutor para uma vida em Cristo e no Espírito. A Moral paraclética e terapêutica quer, pois, contribuir para isso, ao apostar na força de conversão e cura de uma autonomia responsável e intersubjetiva, aquela que possibilita que as pessoas saiam do infantilismo moral, do horizonte da obediência cega e irresponsável, na valorização da consciência como lugar do encontro com a Verdade. Assim compreendida, possibilitará a cada um viver humildemente sua situação de criatura referenciada a um Deus Bom, que cria, cuida, defende e salva, para que todos possam partilhar amorosamente a vida com dignidade, alegria e prazer, sabendo que tudo que há em cada um e no mundo é dom para ser usufruído e cultivado. O amor e a comunhão, a busca conjunta da verdade, potencializam o ser humano ao caminho da autorrealização, da libertação e da salvação.
A moral paraclética e terapêutica quer, finalmente, assumir, no horizonte da evangelização, ao apresentar os valores fundamentais da sexualidade, a missão de matriciar o Reino de Deus. Homens e mulheres paracléticos são chamados a espalhar sementes generosas, a nutrir a vida dos outros e a proclamar a boa notícia do amor que sustenta, anima e entusiasma o caminho de quantos queiram experimentar na liberdade responsável, fiel e criativa a grande aventura de viver.
REFERÊNCIAS
BENTO, PAPA, XVI. Deus é amor. São Paulo: Paulus/Loyola, 2006.
BOFF, L. Saber cuidar: ética do humano, compaixão pela terra. Petrópolis: Vozes, 1999.
FAUS, J.I.G. Sexo, verdade e discurso eclesiástico. São Paulo: Loyola, 1999.
JOÃO, PAPA, XXIII. Discurso de abertura da primeira sessão do Concílio Vaticano II de 11/10/1962. In: Compêndio do Vaticano II. 9. ed. Petrópolis: Vozes, 1969.
MILLEN, M.I.C; BINGEMER, M.C.L. Corporeidade e violência: o templo profanado. In: SOTER (Org.). Corporeidade e Teologia. São Paulo: Paulinas, 2005.
MILLEN, M.I.C. Os acordes de uma sinfonia: a Moral do Diálogo na Teologia de Bernard Häring. Juiz de Fora: Editar, 2005.
VIDAL, Marciano. Ética da sexualidade. São Paulo: Loyola, 2002.
Elcione Leite de Paula.
Resenha de: "Duas vidas, uma escolha
BOLINI, Sumaia Cabrera Farhate. Duas vidas, uma escolha: dentro de você o “eu doente” e o “eu saudável” lutam o tempo todo pelo comando da sua história. São Paulo: Editora Academia de inteligência, 2007. 132p.
A obra foi organizada em dez capítulos pela pioneira a utilizar os princípios da inteligência multifocal no consultório, nas palestras em empresas e escolas. Dra. Sumaia é psicoterapeuta da equipe de seu cunhado Dr. Augusto Cury.
Bolini introduz a obra ao explicar o motivo da mesma: ampliar sua colaboração no consultório para a vida de leitores.
O primeiro capítulo identifica o Eu Doente, aquele entrave da personalidade que nos paralisa no passado. São os traumas, as “janelas killers” que teimam em abrir. Uma principal causa do retrocesso da nossa personalidade é “o orgulho que nos impede de assumirmos estar errados e justifica nossos maus comportamentos”, manifestados nos focos de tensão, independentes da vontade (BOLINI: 34). Sua solução seria para mim, o kairós, tempo de Deus, o que Bolini nomeia como ato de decisão. O tempo oportuno seria o agora, nunca amanhã.
Depois o assunto é sobre onde o Eu Doente atua. Eu vivo doente: gastrite, cólicas, enxaquecas, etc. O Eu Doente jamais reedita o filme do inconsciente, não abre novas janelas, interioriza todas asexperiências arquivadas pelo fenômeno do registro automático da memória. O que impede o DCD, técnica que leva a pessoa a tirar do pensamento negativo a credibilidade que a vida lhe deu (p. 40).
O capítulo seguinte afirma que “nossas conquistas só começam quando não existe mais negociação com o Eu Doente. É sempre não para todos os seus argumentos e vontades. Só mais uma “cheiradinha”: NÃO! (p. 53).
O quarto capítulo exemplifica algumas facetas do Eu Doente, dentre elas a timidez. A autora conta o esforço de seu querido pai, um imigrante árabe cheio de vigor aos 93 anos. Chegou ao Brasil há aproximadamente sessenta anos, fugido das guerras, e não falava uma palavra em português, mas o francês lhe era fluente. Comprou um dicionário francês-português e, todos os dias, comprava jornal, e com o dicionário traduzia-o e aprendia a língua (p. 61).
O Eu Doente vive da agressividade, seu mecanismo de defesa é o infantilismo, não amadurece (p. 67).
O capítulo seguinte questiona cada leitor no sentido de se sua família está no Eu Doente ou Saudável. “[...] dou mais valor para meu filho que tagarela sem parar até ‘me enlouquecer’ do que para o silêncio que eu queria ‘escutar’ naquele momento (Eu Saudável em ação. p. 80)”.
Outro assunto é o argumento da tese de que a falta de um objetivo de vida alimenta o Eu Doente (p. 95). A seguir, Bolini apresenta uma tabela para o leitor se identificar no Eu Doente ou no Eu Saudável.
O capítulo nove expõe as principais características das amizades do Eu Doente, amizades que aprisionam, atemorizam, iludem, têm espírito de urubu feito os noticiários sensacionalistas, idolatram a pimenta nos olhos alheios, por picardia (grifo nosso).
O último capítulo fala onde está Deus para o Eu Doente. Este se reflete na opinião de que “ou Deus não existe ou faz tudo errado!” (p. 119). As considerações finais se ancoram na hipótese aberta à escuta do Eu Saudável: “ninguém pode fazer isso no meu lugar (p. 126).
Elcione Leite de Paula.
Assinar:
Postagens (Atom)