terça-feira, 17 de abril de 2012

Resenha de "O queijo e os vermes"

GINZBURG, Carlo. O queijo e os vermes: o cotidiano e as ideias de um moleiro perseguido pela Inquisição. Tradução Maria Betânia Amoroso. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. 253p.

A obra foi organizada em sessenta e dois subtítulos pelo historiador italiano Ginzburg, nascido em 1936. Sua preciosidade trata de um moleiro, profissão comum na Europa do século XVI. Domenico Scandella, conhecido por Menocchio, nascido em 1532 é o protagonista desta saga. Em 7 de fevereiro de 1584, foi submetido ao primeiro interrogatório inquisitorial. “Menocchio participava integralmente da vida da comunidade. Em 1595, ele foi o portador de uma mensagem do lugar-tenente da Patria do Friuli ao magistrado local” (GINSBURG, 2006, 153). Menocchio, este homem da massa pensou de forma singular, afrontou o poder da hierarquia eclesiástica; por isso foi executado.
“Menocchio “declarou ao cônego Giambattista Maro, vigário-geral do inquisidor de Aquileia e Concórdia, que sua atividade era ‘de moleiro, carpinteiro, marceneiro, pedreiro e outras coisas’” (GINSBURG, 2006, 31). O pároco de Montereale, dom Odorico Vorai foi o anônimo delator daquele que propôs um “novo modo de viver”.
O moleiro que sabia ler e escrever, pensava e discutia suas ideias com o povo e ironizava seus perseguidores da Inquisição com metáforas. Sua cosmogonia materialista heterodoxa motivou a perseguição de seus algozes.

“Foram produzidos pela natureza [os anjos], a partir da mais perfeita substância do mundo, assim como os vermes nascem do queijo, e quando apareceram receberam vontade, intelecto e memória de Deus, que os abençoou”: parece claro pela resposta de Menocchio que a insistente remissão ao queijo e aos vermes tinha uma função puramente analógico-explicativa (GINZBURG, 2006, 102).


Para Menocchio, Deus veio do caos, baseado num mito indiano, mencionado nos Veda, em que a origem do mundo é explicada pela coagulação: água do mar batida e coagulada como o queijo, donde nasceram vermes que se tornaram homens, sendo Deus o mais potente. As ideias do moleiro também tiveram influências do panteísmo. Influência dos maniqueus, quanto no que diz respeito aos dois princípios que regem o mundo: o bem e o mal. Para ele, o amor ao próximo é mais importante que o amor a Deus. Este é composto dos quatro elementos (terra, água, ar, fogo) que formam o homem, imagem e semelhança de Deus. Menocchio não concordava com o purgatório, nem com os sacramentos. Seu discurso frisava o mandamento de Cristo-homem: a misericórdia.
Menocchio ruminava um estrato sólido de cultura oral, criticava a Igreja e propunha que ela voltasse às origens da Igreja primitiva pobre e pura, que tivesse nova moral para o clero e novas doutrinas. Os “mandamentos da Igreja” lhe pareciam, assim como para Caravia, “mercadorias” para engordar os padres (p. 131). O moleiro, considerado heresiarca, almejava uma religião camponesa, simplificada, um “novo mundo”. Conforme este moleiro, o Espírito Santo é um anjo a quem Deus deu a vontade (p. 114). Ele só existe no ser humano. Logo, ninguém é mais virtuoso que o outro, todos são filhos de Deus. Por isso, não há necessidade que algumas pessoas ministrem os sacramentos sobre as outras, por exemplo, não há necessidade muito menos das indulgências ou de relíquias. Não há o pecado original, pecado é fazer mal ao próximo (p. 109).
O moleiro dizia que “quem pensa que sabe muito é quem nada sabe” (GINZBURG, 2006, 42). Lembrava Sócrates. Menocchio morreu pela fé. Questionava a virgindade de Maria, a Redenção, as Sagradas Escrituras, inventadas pelos clérigos para dominar os homens. “A missa e o sacramento do altar eram, portanto, justificados de um ponto de vista quase político, como meio de civilidade” (GINZBURG, 2006, 43). A vida é uma festa ou como dizia Nietzsche, “Deus é dançarino”.
Menocchio, orgulhoso da irreverência de suas ideias, “compreendia que a escritura e a capacidade de dominar e transmitir a cultura escrita eram fontes de poder. Não se limitou, portanto, a denunciar [...] o uso de uma língua burocrática como o latim” (GINZBURG, 2006, 105). Elcione Leite de Paula.

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