quarta-feira, 7 de novembro de 2012

"Aggiornamento": jubileu de ouro do Concílio Ecumênico do Vaticano II

A função dos “sinais dos tempos” como chave hermenêutica para entender o Concílio Vaticano II Elcione Leite de Paula Este texto trata de uma amostra subjetiva a partir de uma leitura atenta de um dos documentos mais importantes do Concílio Vaticano II, evento cinquentenário rejuvenescedor da história da Igreja, que “usou mais do remédio da misericórdia que o da severidade”. Do ponto de vista da Lumen Gentium, observa-se o ato de repensar as estruturas epistemológicas da pastoral. “Sinais dos tempos” será uma expressão implícita na missão dos membros do corpo místico de Cristo, o qual subsiste na Igreja Católica. Muitas vezes, os “sinais dos tempos” será a justaposição entre a doutrina da Igreja e o mundo ultramoderno. Trata-se do diálogo e do chamado para a reflexão. Os membros do corpo místico de Cristo se esforçam para cumprir sua missão ou são indiferentes ao sofrimento dos irmãos empobrecidos da América Latina? “Enquanto, pois nesta terra a Igreja peregrina longe do Senhor (cf. 2Cor 5,6) [...] pelo batismo configuramo-nos com Cristo” (LG 6e. 7b). “Como o Israel segundo a carne, que peregrinava no deserto, já é chamado Igreja de Deus (2Esdr 13,1; cf. Num 20,4; Dt 23,1 ss), assim o novo Israel que, caminhando no presente tempo, busca a futura cidade perene (cf. Heb 13,14), Igreja de Cristo (cf. Mt 16,18)” (LG 9c). E que tempo em que caminhamos: tempo do facebook que pode ser um veículo de denúncia das nossas estruturas injustas que mantêm o status quo de poucos. Mais importante que as redes sociais é a palavra de Deus que nos inspira a fazer da Eucaristia o banquete de todos: configurados a Cristo, somos oblação e devemos nos esquecer de nossos próprios interesses para viver a comunhão e o compromisso com os abeis, com os mais fragilizados, na construção do Reino do Pai Eterno. “Nestas comunidades, embora muitas vezes pequenas e pobres, ou vivendo na dispersão, está presente Cristo, por cuja virtude se consocia a Igreja uma, santa, católica e apostólica” (LG 26a). O colégio episcopal é a sentinela que cuida das ovelhas dispersas do redil da grei do Senhor. Nós, em virtude do nosso sacerdócio comum, ao redor da mesa do Senhor, refletimos sobre até que ponto vivemos a “missionariedade, natureza da Igreja”? Os Presbíteros, “em favor dos fiéis penitentes ou doentes exercem no mais alto grau o ministério da reconciliação e do alívio” (LG 28a). “Já que, hoje em dia, mais e mais o gênero humano se vai unindo numa unidade civil, econômica e social, tanto mais é mister que os sacerdotes [...] levem todo o gênero humano à unidade da família de Deus” (LG 28e). Os padres diocesanos, em especial, se abrem à missão da Igreja universal ou ainda se limitam à zona de conforto da própria Diocese? Os leigos, fiéis batizados, participam do sacerdócio comum, com “todas as suas obras, preces e iniciativas apostólicas, vida conjugal e familiar [...] e mesmo os incômodos da vida pacientemente suportados, tornam-se ‘hóstias espirituais, agradáveis a Deus, por Jesus Cristo’ (1Ped 2,5)” (LG 34b), ofertadas à Mesa com Jesus. “Também os pobres, os fracos, os doentes e atribulados; os que sofrem perseguição pela justiça saibam unir-se de modo especial a Cristo em seu sofrimento pela salvação do mundo” (LG 41f). “A Igreja, para a qual somos todos chamados em Cristo Jesus e na qual pela graça de Deus adquirimos a santidade, só se consumará na glória celeste, quando chegar o tempo da restauração de todas as coisas (cf. At 3,21)” (LG 48a). Esta é a missão da Igreja militante, exodal, a exemplo de Maria, modelo de Igreja, que tem pressa de servir os empobrecidos pelo nosso narcisismo. Deus mesmo nos fala nos homens “e nos dá um sinal de Seu Reino, para o qual, à vista de tão grande nuvem de testemunhas que nos envolvem (cf. Heb 12,1) e de tal contestação da Verdade do Evangelho, somos poderosamente atraídos” (LG 50b). “Deus benigníssimo e sapientíssimo, querendo realizar a Redenção do mundo, ‘quando veio a plenitude do tempo, enviou seu Filho, feito da mulher, ... para que recebêssemos a adoção de filhos’ (Gál 4,4-5)”: mistério revelado na Igreja que o Senhor constituiu como Seu corpo (LG 52). A expressão “Reino de Deus” permeia todos os capítulos da Constituição Dogmática sobre a Igreja. Ela aparece 38 vezes, dentre elas: “o único Povo de Deus estende-se a todos os povos da terra, recebendo de todos êles seus cidadãos para fazê-los cidadãos de um Reino com índole não terrestre mas celeste” (LG 13b). A Igreja do Concílio Vaticano II deixa de se preocupar com o triunfalismo para ser servidora dos pobres, da humanidade, ao entender que é preciso buscar primeiro o “Reino de Deus”, olhar para além de Jesus. “A partir daí, é possível reler até a afirmação polêmica de Loisy e dizer que Jesus anunciou, sim, o Reino de Deus, não a Igreja; que a Igreja é diferente, sim, do Reino; que a Igreja, porém, nasce e vive do vigor e da interpelação do Reino, como seu sinal, germe” (ALMEIDA, 2005, p. 70). A Igreja recebe o mandato de Cristo pelos Apóstolos para se abrir aos frutos do Espírito e anunciar o Ressuscitado. Anunciar seu Salvador, O qual anunciou o Reino do Pai: “Cristo, feito obediente até à morte e por isso exaltado pelo Pai (cf. Filip 2,8-9), entrou na glória do seu reino” (LG 36a). O Papa Gregório I (séc. VII), o Servo dos Servos, se aproxima da linguagem do Vaticano II, com seu testemunho de “respeito e amor fraterno” (ALMEIDA, 2005, p. 126). Esta é a proposta de Jesus, obedecida pelo Concílio Ecumênico do Vaticano II: anunciar o Reino de paz, esperança, amor. Na atitude do lava-pés, a Igreja se questiona novamente, após meio século, se é uma Igreja mais samaritana, mais ministerial, “quenótica”, dialogal, que ufanista. REFERÊNCIAS ALMEIDA, Antônio José de. Lumen gentium: a transição necessária. São Paulo: Paulus, 2005. DOCUMENTOS PONTIFÍCIOS 149. A Igreja. Constituição Dogmática Lumen Gentium. Concílio Vaticano II. 7. ed. Petrópolis: Vozes, 1967.

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