quarta-feira, 7 de novembro de 2012

História do Cristianismo moderno: Weber

História do Cristianismo Moderno Aluno: Elcione Leite de Paula Resenha: A perda de tempo através da vida social, conversas ociosas, do luxo, e mesmo do sono além do necessário para a saúde — seis, no máximo oito, horas por dia — é absolutamente indispensável do ponto de vista moral. Não se trata assim do “Time is Money” de Franklin, mas a proposição lhe é equivalente no sentido espiritual: ela é infinitamente valiosa, pois, de toda hora perdida no trabalho redunda uma perda de trabalho para a glorificação de Deus [...] existe o domingo, e, segundo Baxter, são os que não estão absortos em sua vocação, que nem para Deus têm tempo, na hora existente para esse mister (p. 112). A ascese sexual do puritanismo somente difere no grau, e não na essência, da ascese monacal; e, de acordo com a concepção puritana do casamento, como meio desejado por Deus para aumento de Sua glória, de acordo com o mandamento “Crescei e Multiplicai-vos”. Mas, o mais importante é que o trabalho constitui, antes de mais nada, a própria finalidade da vida. A expressão paulina “Quem não trabalha não deve comer” é incondicionalmente válida para todos. A falta de vontade de trabalhar é um sintoma da ausência do estado de graça (p. 113). Princípios éticos para a reforma do mundo não podiam ser encontrados no rol dos pensamentos de Lutero, que nunca conseguiu libertar-se completamente da indiferença paulina pelo mundo. Este, portanto, devia ser aceito como era, e só isto já podia constituir-se num dever religioso (p. 114). Também de acordo com a ética Quaker é a vida profissional do homem que lhe dá certo treino moral, uma prova de seu estado de graça para a sua consciência, que se expressa no zelo e no método, fazendo com que ele consiga cumprir a sua vocação [...] Na concepção puritana da vocação, a ênfase sempre é posta neste caráter metódico da ascese vocacional, e não, como em Lutero, na aceitação do destino irremediavelmente assinalado por Deus (p. 115). A parábola do servo que foi desaprovado por não ter aumentado a soma que lhe foi confiada serve para expressar isso diretamente (p. 116). A teoria segundo a qual a Lei Mosaica perdeu sua validez através do Novo Testamento, apenas no sentido de conter preceitos cerimoniais e puramente históricos aplicáveis somente ao povo judeu, de resto permanecendo válida e, devendo ser obedecida como uma expressão do direito natural, permitiu, de um lado, eliminar os elementos inconciliáveis com a vida moderna, e, do outro, o fortalecimento do espírito de sóbria e farisaica legalidade, que caracterizava o ascetismo secular dessa forma de protestantismo, através de seus inúmeros traços em comum com a moralidade do Velho Testamento (p. 118). A sociedade monárquico-feudal defendia os que queriam divertir-se contra a moral da burguesia ascendente e as convenções ascéticas insubmissas à autoridade, da mesma forma que a atual sociedade capitalista tende a proteger os que querem trabalhar contra a moralidade de classe do proletariado e do anti-autoritário sindicato (p. 119-120). O ódio feroz dos puritanos, contra tudo que cheirasse a superstição, contra todas as reminiscências da salvação mágica ou sacramental opunha-se, tanto às festividades cristãs do Natal, como à árvore de maio, e também a toda arte religiosa espontânea (p. 120-121). Mas, o que era ainda mais importante: a avaliação religiosa do infatigável, constante e sistemático labor vocacional secular, como o mais alto instrumento de ascese, e, ao mesmo tempo, como o mais seguro meio de preservação da redenção da fé e do homem, deve ter sido presumivelmente a mais poderosa alavanca da expressão dessa concepção de vida, que aqui apontamos como “espírito” do capitalismo (p. 123). Transcrevemos aqui um trecho de John Wesley. Isto, porque mostrara que os líderes desses movimentos ascéticos compreendiam muito bem as relações aparentemente tão paradoxais que aqui analisamos. Assim escreve ele: “[...] Os metodistas tornaram-se laboriosos e econômicos em toda parte; consequentemente, aumenta a sua riqueza. E, proporcionalmente, crescem neles o orgulho, as paixões, os apetites da carne e do mundo, e a soberbia da vida. Assim, embora permaneça a forma da religião, seu espírito rapidamente se desvanece. Não haverá algum meio para evitar essa decadência da pura religião? Não devemos deixar de recomendar às pessoas que sejam laboriosas e aconômicas. Devemos exortar todos os cristãos a ganhar tudo o que for possível, e a economizar o máximo possível; isto é, em outras palavras, a se enriquecerem” (p. 126). Então aparece, como se pode ver em Dwden, na figura fantasiosa de Robinson Crusoe, o isolado homem econômico, que desenvolve atividades missionárias, em vez da procura interior individual do reino dos céus, na “feira da vaidade” do apressado peregrino de Bunyan (p. 127). Por outro lado, do ponto de vista dos trabalhadores, havia, por exemplo, a corrente pietista de Zinzendorf a glorificar o trabalhador fiel a seu ofício, que não ansiava por riquezas, mas vivia de conformidade com o modelo apostólico, sendo assim dotado do charisma dos discípulos (p. 128). Um dos componentes fundamentais do espírito do moderno capitalismo, e não apenas deste, mas de toda a cultura moderna: a conduta racional baseada na ideia da vocação, nasceu – segundo se tentou demonstrar nessa discussão — do espírito da ascese cristã (p. 130). De acordo com a opinião de Baxter, preocupações pelos bens materiais somente poderiam vestir os ombros do santo “como um tênue manto, do qual a toda hora se pudesse despir”. O destino iria fazer com que o manto se transformasse numa prisão de ferro (p. 131). Então, finalmente, poder-se-ia traçar o curso de sua transformação histórica (do racionalismo ascético), dos princípios medievais de uma ética secular para um puro utilitarismo, através das diversas ampliações do campo da religiosidade ascética. Somente então é que se poderia avaliar a medida do significado cultural do protestantismo ascético em relação a outros elementos componentes da cultura contemporânea (p. 132). REFERÊNCIA WEBER, Max. A ascese e o espírito do capitalismo. In: ____. A ética protestante e o espírito do capitalismo. Tradução M. Irene de Q. F. Szmrecsányi, Tamás J.M.K. Szmrecsányi. 5. ed. São Paulo: Pioneira, 1987. Elcione Leite de Paula

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