quarta-feira, 7 de novembro de 2012
LIturgia I: obra do teólogo Joseph Ratzinger, Papa Bento XVI
RATZINGER, Joseph. Introdução ao espírito da liturgia. Tradução Jana Almeida Olsansky. 3. ed. São Paulo: Paulinas, 2010. 174p.
A obra de Ratzinger trata, como bem expressa o título, de uma profunda introdução ao espírito da liturgia, seu valor histórico, cósmico. Ele opta por dividi-la em quatro partes, sendo elas: Sobre a natureza da liturgia; tempo e espaço na liturgia; liturgia e arte; a configuração da liturgia.
No prefácio, o Autor manifesta o desejo de que sua obra seja um novo estímulo para um movimento para a execução correta da Liturgia no seu exterior e interior.
O primeiro capítulo da primeira parte do livro delimita o que é Liturgia, sua ligação com a Vida, sobre o seu lugar na realidade. Liturgia seria contemplação, encontro maduro e abertura ao Deus vivo, “um prelúdio da futura e eterna vida a qual, como expõe Agostinho, não é, ao contrário da nossa vida presente, tecida de necessidade e obrigatoriedade, mas sim inteiramente da liberdade de oferecer e dar” (p.10).
O segundo capítulo da primeira parte explicita a relação da Liturgia com o Cosmos e a História. O Autor explica que diferente dos exercícios de relaxamento das religiões do Extremo Oriente, a filosofia cristã adotou o esquema de exitus e reditus.
Enquanto aqueles exercícios de relaxamento visam por uns momentos a libertação do finito, e possuem por isso força salvadora, a filosofia cristã pensa de modo oposto: o exitus, que é “o livre acto de Criação de Deus visa o reditus, mas isso não significa retirar o que foi criado, mas [...] a autocontemplação da criatura que se encontra no próprio íntimo dela e que responde livremente ao amor de Deus” (p. 23).
O terceiro capítulo aborda a transmissão do Antigo para o Novo Testamento, a forma fundamental da Liturgia cristã determinada pela Fé bíblica. O capítulo fala do caráter universal da encarnação da palavra eterna, do encontro de Deus com a Humanidade. Ratzinger conclui o capítulo ao afirmar que a Liturgia cristã é “a Liturgia da peregrinação que tem em vista a transformação do mundo, a qual só acontecerá, quando for ‘Deus tudo em todos’” (p. 38).
O primeiro capítulo da segunda parte da obra diz sobre a relação da Liturgia com o espaço e o tempo. O Autor enfatiza a Teologia dos símbolos que nos ligam ao oculto e ao presente. O véu do templo que se rasgou significa a unificação de toda a Humanidade com Deus vivo. “Na celebração litúrgica concretizam-se simultaneamente a inversão de Exitus e Reditus; a partida torna-se-á retorno, a descida de Deus tornar-se-á a nossa elevação” (p. 46).
O segundo capítulo relata o significado da igreja como edifício. A síntese da explicação é que “quem concretiza ‘o culto’ é Jesus — estando diante do Pai, Ele torna-se o culto dos seus, enquanto esses se juntam nele e em volta dele” (p. 47).
No terceiro capítulo, o qual discorre sobre o altar e a orientação da oração na Liturgia, percebemos o questionamento de Ratzinger acerca do perigo das inovações na Liturgia: “Será que a cruz incomoda a Eucaristia?” (p. 62).
O quarto capítulo se conclui ao afirmar que “o tabernáculo deve encontrar o lugar que lhe cabe na arquitectura da igreja, para que a presença do Senhor nos toque concretamente” (p. 67).
O quinto capítulo, ao abordar o tempo sagrado defende que “as festas maiores, que são a estrutura do ano da fé, são festas de Cristo e deste modo relacionadas com o único Deus, que se revelou a Moisés junto à sarça ardente e que escolheu Israel para ser o detentor do testemunho da sua singularidade” (p. 82).
Já no primeiro capítulo da terceira parte, o Autor destaca a questão das imagens, sobretudo a de Cristo, representado como o verdadeiro filósofo, como o Mestre, vindo da figura do pastor. “Esta imagem da Sagrada Escritura era muito admirada na primeira Cristandade, pois o pastor era simultaneamente a alegoria do Logos: o Logos que tudo criou, que contém todas as imagens originais de todos os seres, ele é o pastor da Criação” (p. 87).
O capítulo segundo nos remete à importância da música litúrgica. O relato bíblico descreve a reação do povo ao acontecimento fundamental da libertação no cântico de Moisés. Conforme o Pesquisador, a palavra cantar é uma das mais usadas na Bíblia. “Para os Cristãos, a ressurreição de Cristo que atravessou, Ele próprio, o ‘Mar Vermelho’ da morte, mergulhando no mundo das sombras e empurrando os portões dos cativeiros, foi o verdadeiro Êxodo, eternamente presente no Baptismo [... vida nova]” (p. 102). Ratzinger ainda conclui o capítulo ao assegurar que “na Liturgia, a alegria que sentimos através de Deus e do contacto com a sua presença continuam, também hoje, a ser um poder de inspiração inesgotável” (p. 115).
O primeiro capítulo da quarta e última parte da obra de Ratzinger relata sobre o Rito e expressa que “só o respeito pela precedência e pela definição essencial da Liturgia pode proporcionar-nos aquilo que esperamos dela: a celebração da magnitude que se aproxima de nós, que não é arquitectada por nós e que se nos oferece” (p. 125).
O segundo capítulo trata sobre a Liturgia e o corpo. O Autor subdivide o capítulo em sete pontos principais da celebração litúrgica: a participação ativa de cada fiel, o sinal da cruz, as posições, os gestos, a voz humana, a veste litúrgica, a matéria, incluindo os sacramentos. Conforme Ratzinger, a posição de “sentados” foi introduzida recentemente, a fim de serem possibilitadas boa audição e compreensão. No capítulo é destacada uma informação significativa, que às vezes reduz a riqueza da inculturação: dança. “A dança não é uma forma de expressão cristã. Já no século III, os círculos gnóstico-docéticos tentaram introduzi-la na Liturgia” (p. 146). As considerações finais deste último capítulo nos convocam ao comprometimento da vida litúrgica: o “agora” e “ainda não”, “único”, “depois”. Cristo toma iniciativa, aproxima-se de nós “com essa particular forma humana, fazendo de nós irmãos para além de todas as fronteiras. É assim que o reconhecemos: é o Senhor”: Jo 21, 7 (p. 165). Elcione Leite de Paula
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