segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Liturgia I: sobre o memorial da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus: fração do Pão e os discípulos-viandantes do Caminho

Elcione Leite de Paula: 1. Até hoje não existe, nem no Magistério da Igreja, uma definição clara sobre a diferença entre Liturgia e exercícios de piedade do povo cristão. A semelhança está no espaço celebrativo e no tempo. No entanto, a Liturgia oficial da Igreja celebra o ano litúrgico. Quanto aos ministérios, há os Mistérios ordenados e os de carisma (sacerdócio comum) instituídos aos leigos pelos Ordinários (Bispos). Conforme Pedro Assis Ribeiro de Oliveira, as práticas celebrativas do chamado “catolicismo popular” é catolicismo, uma vez que dele também fazem parte elementos como o batismo, a primeira comunhão, a missa, e, mesmo fundamentado em uma piedade subjetiva, não fere os dogmas. Porém, carece dos núcleos sacramental e evangélico, caracterizando-se em seu caráter privado, em que a presença do sacerdote é inexistente ou de mero caráter auxiliar. Para Oliveira, o catolicismo oficial da Igreja em quatro núcleos. O primeiro núcleo é o sacramental, incluída a participação do sacerdote como condição sine qua non para operar as relações com o sagrado. O segundo é o núcleo evangélico. É a expressão da Bíblia como ponto de reflexão e livro norteador da doutrina. Sobre o contato do povo com a Bíblia, afirma João Fagundes Hauck que este era feito no Brasil colonial e no Império tão somente por meio de representações, mormente na época da Semana Santa e Natal. Estabelecia-se dessa forma entre a população e o Evangelho um relacionamento de “cunho folclórico, festivo, nos reisados e congadas, e na apresentação do presépio” (HAUCK, et. AL. 1992: 106). Logo, tanto o núcleo sacramental quanto o evangélico estão sob o esteio da piedade objetivo-formal. O terceiro núcleo é o devocional, o qual caracteriza-se pelo relacionamento sem interferências do homem com o sagrado, visto sob o viés da piedade antropocêntrica ou subjetiva. Tal contato se materializa em caráter individual, como, por exemplo, em forma de orações (oficiais ou não), novenas, penitências que evitam um “castigo” maior do santo. Ou ocorrem coletivamente, como nas romarias,procissões, festas de santos, dentre outros. O quarto e último núcleo do Catolicismo ou Liturgia oficial da Igreja, de acordo com Oliveira, é o núcleo protetor, que se define pelas relações diretas e sem interferências do homem com o sagrado, desta vez sob a ótica da proteção, entendida aqui como a obtenção de vantagens concretas: os santos vão interceder pelo devoto na obtenção de um emprego, na volta de um amor perdido, enfim, na busca do reequilíbrio material ou emocional afetado pelas dificuldades da vida. Assim sendo, Oliveira (1972) conclui que “catolicismo popular é aquele em que os núcleos devocional e protetor primam sobre os núcleos sacramental e evangélico” (p. 354). Na paraliturgia estão inclusos a encomendação dos fiéis defuntos, a “Missa de Sétimo Dia”, a oração comunitária como o Rosário, o Angelus, a Via-sacra (p. 549). “Para nos converter em uma Igreja cheia de ímpeto e audácia evangelizadora, temos que ser de novo evangelizados e fiéis discípulos. Conscientes de nossa responsabilidade pelos batizados que deixaram essa graça de participação no mistério pascal e de incorporação no Corpo de Cristo sob uma capa de indiferença e esquecimento, é necessário cuidar do tesouro da religiosidade popular de nossos povos, para que nela resplandeça cada vez mais ‘a pérola preciosa’ que é Jesus Cristo, e seja sempre novamente evangelizada na fé da Igreja e por sua vida sacramental. É preciso fortalecer a fé ‘para encarar sérios desafios, pois estão em jogo o desenvolvimento harmônico da sociedade e a identidade católica de seus povos’” (DAp 549). 2 Traduzindo literalmente leitourghía “significa obra pública, ‘serviço da parte de/e em favor do povo’. Na tradição cristã ela compreende que o povo de Deus toma parte na ‘obra de Deus’. Pela liturgia, Cristo, nosso redentor e sumo sacerdote, continua na sua Igreja, com ela e por ela, a obra de nossa redenção” (CEC 1069). A partir do Concílio Ecumênico Vaticano II, houve uma profunda renovação na Liturgia da Igreja. “Pois a Liturgia, pela qual, principalmente no divino Sacrifício da Eucaristia, ‘se exerce a obra de nossa Redenção’, contribui de modo mais excelente para que os fiéis exprimam em suas vidas e aos outros manifestem o mistério de Cristo e a genuína natureza da verdadeira Igreja” (SC 2). No helenismo, a liturgia passou a ser o serviço determinado pela lei por uma parte do povo. No decorrer do tempo, essa iniciativa perdeu seu caráter livre, tornou-se imposta, “serviço” prestado ao Estado, à divindade ou a um particular. Na Septuaginta (AT), a palavra liturgia aparece cento e cinquenta vezes, designa em sua maioria, o culto exterior que os sacerdotes e levitas ofereciam no templo, sobretudo os sacrifícios (cf. Ex 27,19; 28,35; 1Cr 23-28). No NT, leitourgía e seus derivados ocorrem quinze vezes, tendo três acepções diferentes: a) Significado profano (Fl 2,30; Rm 13,6). b) Significado cúltico-ritual (At 13,2; Lc 1,23; Hb 9,21). c) Significado vivencial (toda a vida do cristão vem a ser um culto a Deus, de modo que nada há aí de profano ou arreligioso: Fl 2,17; Rm 1,9; 12,1; 15,16; Fl 3,3; 1Pd 2,5). “Reuni-vos no dia do Senhor, para romperdes o pão e dar-des graças” (Didaqué 14,1): Instrução escrita entre 70-90 EC. At 2,42. Nos escritos pós-apostólicos: Para o conhecimento litúrgico dos primeiros séculos do Cristianismo, na Tradição Apostólica destaca-se a figura de Hipólito de Roma. Contemporâneo de Orígenes (e, provavelmente, originário, como Irineu, seu mestre, do Oriente), se faz apologeta dos valores tradicionais da fé católica transmitida pelos apóstolos. A instituição catecumenal (batismo, martyria: testemunho) é uma das mais acabadas ações da Igreja nos séculos II e III, é o desenvolvimento do que estava em germe no Novo Testamento (ex. At). São Clemente de Roma escreve aos Coríntios acerca do culto cristão, sobre a Eucaristia, fração do pão, baseada em At 12,3. Após uns quatro séculos esquecida, a Liturgia foi por Pio IX, no início do séc XX. A encíclica Mediator Dei dialoga com o Movimento Litúrgico. Foi inclusa no Código de Direito Canônico (CIC) de 1917. A Liturgia ganhou destaque no Sacrossanto Concílio: accio, celebratio, oficium; do Concílio Ecumênico do Vaticano II. 3 Memorial é a atualização da dimensão histórico-profético da salvação. “Hoje escravos, amanhã livres”. É o mesmo pão, como se anulasse a dimensão espaço-temporal. Deus age aqui e agora (Ex 12,1-14.28). O Sinal Profético é a antecipação. Iteração: (Ex 12,28; “tomou, deu graças, partiu, deu dizendo a novidade “isto é o meu corpo...). Ex. A última Ceia no Egito (Ex 3,7-8), as normas dadas por Deus, e a última Ceia de Jesus. O Evento Fundante é único e irrepetível: o Êxodo, a Libertação (Ex 3,7-8; 12,1-14.28), a Morte de Jesus na Cruz, a Redenção (Hb 9,26-28; 10,10). A Ação Ritual é a ação memorial, é o dado da repetição, atualização; dá acesso ao futuro de viver o mesmo evento fundante, “mesmo efeito salvífico de nossos antepassados”. Ex. Ervas amargas, o Cordeiro (Ex 12,14), a própria Celebração Eucarística, a Fração do Pão (Pão e Vinho; “será derramado, será dado”: “Anunciamos Senhor a Vossa morte e proclamamos...”. 4 A grande assembleia de Siquém, relatada em Js 24, enfatiza o vínculo entre a palavra divina que narra a história passada como história da salvação e a resposta do povo a essa palavra, na obediência à lei de Deus. Porém, inúmeras vezes o povo estabeleceu um divórcio prático entre história-culto-lei, isolando o rito tanto da palavra interpeladora de Deus como da resposta consequente numa vida de fidelidade à vontade de Deus; esse comportamento ritualista implicava um desvio da autêntica imagem de Deus como presença libertadora na história. Não tardou a denúncia profética: “Eu odeio, eu desprezo as vossas festas e não gosto das vossas oferendas e não olho para o sacrifício de vossos animais cevados...” (Am 5,21-24; Is 1,10-16; 29,13; 58,1-8; Jr 6,20; 7,1-15; Os 6,6; Mq 6,5-8; Eclo 34,18-26...). Por fim, o culto de Israel, dos acontecimentos libertadores do passado, contém uma dinâmica de esperança, uma tensão escatológica voltada para o futuro. 5 “Deste jeito Deus é! Permanente ação (serviço) em favor da vida do seu povo. A palavra “liturgia”, no seu sentido de serviço público, me faz lembrar que Deus é deste jeito. Então, por que não dizer que liturgia é o próprio jeito de Deus como ação em favor da humanidade? E daí, por que não dizer que o jeito de ser Deus é liturgia? Por que não dizer que Deus é a perfeição da liturgia, a própria fonte de toda liturgia. E celebrar a liturgia seria: Celebrar a perfeita liturgia que vemos em Deus” (ARIOVALDO). 6 “O verbo ‘celebrar’ tem um significado festivo, ritual e comunitário. Celebrar é glorificar, exaltar, festejar uma pessoa ou um acontecimento. Tem como objeto o mistério da salvação, o mistério pascal do Senhor. Toda celebração é festa, é um operar simbólico num clima de festa que exorta à participação ativa dos participantes. É celebração da vida no tempo em comunidade. Caracteriza-se por forte vivência de sentimentos, ruptura do cotidiano, sentido simbólico. A liturgia é memorial dos acontecimentos salvadores, é celebração em comunidade em união com toda a Igreja. É uma Epifania, é a celebração do ‘hoje’ de Deus no ‘Hoje’ dos homens. Os protagonistas da celebração são Deus em seu mistério trinitário e os homens congregados em assembleia, constituídos em povo sacerdotal” (POUILLY: 81-82).

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