quarta-feira, 7 de novembro de 2012
Resenha de eclesiologia
BRIGHENTI, Agenor. A Igreja do futuro e o futuro da Igreja: perspectivas para a evangelização na aurora do terceiro milênio. São Paulo: Paulus, 2001 (Coleção comunidade e missão).
Agenor Brighenti é licenciado em Filosofia e graduado em Teologia pela Universidade do Sul de Santa Catarina. É especialista em Pastoral Social e Planejamento Pastoral pelo Instituto Teológico-Pastoral do Celam e doutor em Ciências Teológicas e Religiosas pela Universidade Católica de Louvain (Bélgica). Atualmente, é professor no Programa de Pós-graduação em Teologia da PUC-Paraná.
Este pequeno tratado ou livro é um aperitivo que revigora o gosto da nossa consciência, despertando-a para a necessidade da abertura à realidade pluricultural e enriquecedora. A introdução diz que a Igreja, portadora de palavra de salvação, também se encontra na encruzilhada, cercada pela crise holística, de paradigmas. Ela precisa reelaborar sua autocompreensão e sua compreensão de Deus e do mundo (p. 5-6). “Aconteceria um verdadeiro “kairós” no coração da história, um novo “sinal dos tempos”, em que o Espírito Santo estaria dirigindo forte apelo de renovação às religiões institucionais, em particular ao cristianismo [...]” (p. 7). O fenômeno da experiência religiosa é complexo.
O capítulo primeiro nos atenta para o fenômeno da globalização, já marcado pelos grandes descobrimentos geográficos e conquistas do século XVI. É próprio do ser humano buscar situar-se em horizontes cada vez mais amplos (p. 9). O texto menciona Mircea Eliade, ao dizer da descoberta das culturas como maior novidade do século XX. São citados alguns filósofos, dentre eles, Levinás, o qual trabalha o conceito de alteridade. O outro não é necessariamente mais herege nem “meu inferno”, como pensou Sartre, mas a baliza do meu “eu”; a tomada de consciência da presença do outro, enquanto gratuidade, e da dimensão sabática da existência (p. 11). Quanto à experiência religiosa no contexto da crise da modernidade é inegável a existência de processos de complementaridade, de aprendizado comum, que no Ocidente significa relativizar muitas coisas, elaborar novas sínteses. Em seus metarrelatos atuais, o cristianismo tornou-se uma experiência religiosa marcadamente ocidental e consequentemente implicado em cheio na crise da modernidade (p. 14). O catolicismo, de modo particular na América Latina, é plural. “Na América Latina, o catolicismo popular é o resultado da transposição da religiosidade ibérica pré-tridentina e da ulterior marca tridentina, marca esta levada a cabo pelo processo de romanização no século XIX, na perspectiva da Contra-Reforma” (p. 15). O catolicismo tradicional popular sobreviveu com a carência da presença do clero: com prática religiosa explicitada em devoções herdadas das culturas afros e indígenas, por exemplo. “No seio do catolicismo, há outro tipo de prática religiosa que se poderia denominar ‘catolicismo comprometido’, em que predomina a fisionomia eclesial impressa pelo Concílio Vaticano II [...]” (p. 16). Outra vertente do catolicismo é a reacionária. “É a principal responsável pelo processo de ‘involução eclesial’. A restauração passa sobretudo pela esmerada formação dos quadros eclesiásticos na doutrina tradicional, a quem os leigos devem estar submissos” (p. 18). O catolicismo universalista é constituído por movimentos com membros recrutados nas camadas de classe média. “São a extensão dos braços do catolicismo reacionário. Isso não quer dizer que seus membros sejam necessariamente reacionário” (p. 18). “De par com a experiência religiosa dos grupos evangélicos pentecostais de cunho protestante, frente aos quais está numa acirrada disputa do mercado, está o catolicismo pentecostal. “O catolicismo emancipado é formado por segmentos de católicos ditos ‘adultos na fé’ e que advogam uma Igreja em continuidade com as intuições e teses do Concílio Vaticano II” (p. 20-21). O catolicismo descomprometido “caracteriza-se pelo denominado ‘substrato católico’ enraizado na cultura, que faz parte da tradição em termos de herança familiar e que se expressa em obrigações formais e sacramentalização ocasional. “Com a consciência ecumênica criada pelo Concílio Vaticano II, do lado católico, e com a criação do Conselho Mundial de Igrejas, do lado protestante, muito já se tem caminhado no sentido de um diálogo religioso sincero e construtivo” (p. 23).
O autor explora um pouco sobre a Nova Era, centrada sobre a sensibilidade e o afeto, a integração do espiritual e material, e a iluminação da inteligência (gnosticismo)” (p. 26).
O capítulo segundo aponta propostas para além da encruzilhada: uma Igreja católica a partir da universalidade das Igrejas particulares (ou locais) e sua efetiva abertura às demais Igrejas (p. 29). Uma outra proposta é a de uma Igreja inculturadora do evangelho e dos evangelizadores, com missão tanto ad intra quanto ad extra (p. 32). Uma Igreja resgatadora do simbólico, menos racional, nem esotérica.Uma Igreja que uma salvação com libertação histórica, que não seja intimista, mas encarnada. Uma Igreja com “coração sensível”. É o lado mãe da Igreja, aquela que escuta, perdoa, é mais samaritana. Uma Igreja que une libertação social com libertação pessoal; salvação apontada para uma ação transformadora da sociedade (p. 37). Uma Igreja que torna presente o espiritual no mundo secular, com cosmovisão ecológico-planetária, que cuida da Criação. “Na fidelidade à herança espiritual de Francisco de Assis, é inadmissível um cristianismo sem sensibilidade ecológica (p. 39). Por fim, o oitavo modelo de Igreja que é aquela que liga e religa o ser humano com Deus e o mundo. “A Igreja do futuro terá sua missão enfocada a partir da tríade que caracteriza o papel de toda religião: ser o elo que liga e religa homem-Deus-natureza” (p. 40).
O último capítulo acena cinco atitudes do futuro para a Igreja, desde a encruzilhada: afrontar o risco do relativismo religioso, sem interromper o diálogo ecumênico e macroecumênico; propiciar uma experiência pessoal do sagrado, a “religião do coração” (encontro pessoal com Jesus Cristo); ser, quem sabe, o último reduto da utopia; buscar uma compreensão mais profunda da Revelação; renunciar à falsa segurança do fundamentalismo (intolerância, triunfalismo, proselitismo).
Elcione Leite de Paula.
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